
Não costumo assistir TV, tanto que logo depois da
mudança para o novo apartamento, um dos aparelhos de televisão, aquele que
seria do meu quarto, chegou a ficar quase um ano dentro da caixa de papelão.
Temendo que estragasse por falta de uso, doei para um dos funcionários do
condomínio. Enfim, mesmo não sendo um telespectador apaixonado e fiel, não consigo
(jamais consegui) enxergar a televisão como um instrumento “poderoso”, capaz de
ditar normas, influenciar comportamentos etc. Acho que qualquer emissora (comercial ou
estatal) sempre procura responder às demandas da própria sociedade. Se a
sociedade se tornou medíocre, é natural que as programações também sigam por
esse caminho.
Tenho amigos e conhecidos que trabalham em diversos
setores em emissoras de televisão (na própria Rede Globo), desde a área
comercial até as de criação, interpretação, direção e produção de programas.
Jamais fiquei sabendo que eles foram obrigados a
trabalhar neste ou naquele projeto por imposição da “alta cúpula” da emissora.
Há, evidentemente, uma preocupação com a audiência – afinal, sem retorno
financeiro, nada vinga em qualquer tipo de negócio. E televisão é um tipo de negócio.
Não é filantropia, nem cabe a ela a educação que as famílias pós-modernas (não
todas, lógico) se mostram cada vez menos capazes de oferecer aos seus rebentos.
A crise está nas famílias (nos modelos ultrapassados de família machista,
heteronormativa e heterocentrada, que não se adaptaram às mudanças sociais e às
demandas das gerações atuais), não na televisão. Ela simplesmente reflete tudo isso.
Vejam, não estou defendendo a Rede Globo ou qualquer
outro canal aberto, apenas fico bastante incomodado com os rumos que têm tomado
os espaços abertos na net para o debate. Não há debate, apenas ataques
gratuitos, ranço e total falta de critério por parte dos internautas.

Algo para refletirmos, não?
Ok, é verdade: não assisto o tal “zoológico de gente”
(talvez se os participantes não fossem tão engessados e transassem livremente na
frente das câmeras, não embaixo do edredom, como acontece em algumas versões do
mesmo programa na Europa e, se não me engano, África, eu até poderia me
interessar em “dar uma espiada” para espantar o tédio). Ora, também não vejo
futebol... Nem por isso vou odiar que jogos sejam transmitidos. Não gosto (ou
melhor: detesto até mesmo as partidas da seleção!), mas não estou sozinho no
mundo. Há os que apreciam, torcem, sofrem por seus times. E isso também deve
dar um bom lucro, caso contrário não haveria interesse em continuar transmitindo.
Até mesmo as missas católicas, cultos protestantes etc. devem dar algum retorno
direta ou indiretamente aos seus produtores, ou seriam retirados do ar.
Ora, o que me irrita é que as pessoas querem ditar
regras de conduta, como se fossem donas da verdade. Gostemos ou não, essa tal “verdade”
não existe. Vamos construindo nossas vidas com tentativas e escolhas pessoais. O resto é ilusão, falácia,
hipocrisia, recalque.

Como me disse certa vez um amigo escritor: “Nem tudo é
céu ou inferno”. Demorei algum tempo para entender isso. Claro que é mais
cômodo ter uma visão maniqueísta, com apenas duas medidas para “entender e
classificar” o mundo: alto ou baixo, bom ou ruim, gordo ou magro, chuva ou sol,
Deus ou diabo... Desculpe, mas também é mais estúpido pensar assim.