Por falar em “Ivo Rodrigues”... Minha mãe teve salão de
beleza na avenida Duque de Caxias (Uruguaiana, RS) – em números diferentes, mas sempre foi lá
que ela trabalhou. Cresci ouvindo todo tipo de história. Volta e meia, surgia um
novo comentário sobre o Ivo. Vamos ver se me lembro de alguns...
.
Nascido em São Borja, RS (alguns dizem que foi em Itaqui, RS), no último dia de julho na
primeira década do século passado e abandonado pela família por causa dos
trejeitos efeminados que iria apresentar com o tempo, Ivo foi criado na periferia de Uruguaiana por uma
velha cafetina em um bordel simples (“tasca”, como se diz lá do Sul). Cuidou
da mãe adotiva até o fim. Herdou dela o cabaré. Com gosto refinado e tino,
digamos, bastante comercial, revigorou o lugar. Anos depois, já seria dono do
bordel mais famoso e requintado da cidade, em uma região bem central.
. Era um marqueteiro nato. “Segundo os mais
antigos, faltando cinco dias para seu aniversário, Ivo mandava alguém de sua
confiança até a emissora de rádio local e pagava dezenas de mensagens em sua
homenagem. Aquilo era a largada, pois a partir daí as mensagens começavam a
chegar de todas as áreas da cidade, o que fazia seu cabaré ‘bombar’ durante uma
semana” (Olhares de Claudia Wonder:
crônicas e outras histórias (GLS/Summus, 2008, p. 129-130).
. Ele gostava de andar de carruagem (carruagem,
aliás, que está exposta hoje no Centro Cultural de Uruguaiana) e ia comprar
tecidos finos nas melhores lojas da cidade;
. Embora se
vestisse de mulher, fazia questão de ser tratado no masculino;
. Tinha
joias caras, perfumes importados e uma coleção de bonecas e outros bibelôs trazidos
de vários países;
. Meninas “perdidas” (assim eram chamadas as moças
que transavam antes do casamento; pior ainda... quando engravidavam) eram chutadas
para fora de casa, e Ivo as recolhia nas praças, botecos, rodoviária e estação de trem. Se
quisessem ser “da vida”, eram treinadas para tal. Caso contrário, podiam
trabalhar em outras atividades no cabaré. Seus filhos (quando elas não queriam
abortar), dizem, eram apadrinhados por ele. Não só para moças “perdidas”, mas
as portas da casa do Ivo jamais estiveram fechadas para qualquer outra pessoa
que precisasse de ajuda;
. Para
costureiras, encomendava vestidos para ele e suas “meninas”, porém enviava
medidas e modelos. Se a roupa precisasse de algum acerto, as instruções seriam
enviadas por escrito. Não permitia que as costureiras frequentassem o seu
cabaré, nem autorizava suas meninas irem até elas;
. Em festas, como Páscoa, Dia das Crianças, Dia
das Mães, Natal etc., não havia expediente no cabaré, mas filas enormes se
formavam na porta principal. Nenhuma pessoa carente (de qualquer idade, raça
etc.) saía dali de mãos abanando;
. Certa
vez, um tio meu, muito danado, mas ainda menor de idade, decidiu frequentar o
tal cabaré. Sempre muito possante, ele aparentava ser mais velho. Minha mãe,
responsável por este irmão (naquele tempo, era comum que as irmãs mais velhas
terminassem de criar os irmãos caçulas), descobriu as aventuras do rapazote.
Sempre muito durona, foi lá e bateu na porta do cabaré. Mas o Ivo não permitiu
que ela entrasse, apenas pediu a um funcionário que ouvisse atentamente e lhe
trouxesse a queixa da vizinha. Para desgosto do meu tio, nunca mais foi
permitido que ele entrasse no cabaré;
. Quando minha irmã nasceu, em sinal de paz e
simpatia, mandou que entregassem aos meus pais um joguinho de talheres para criança, de
prata. Minha mãe diz que ainda guarda tal presente do Ivo;
. Também contam que ele, vestido de
mulher, carregava um facão escondido embaixo da saia. Quando houvesse confusão no cabaré,
ele acabava logo com a briga. Até os fuzileiros e os brigadianos (como são
conhecidos os da Brigada Militar) o respeitavam. Eram os mais “brigões”. Porém
bastava o Ivo gritar para que se retirassem da casa, que eles obedeciam
prontamente;
. Sua filantropia ia mais além da distribuição de
presentes e alimentos aos necessitados, contam que ajudou muitos jovens em seus estudos, alguns se tornaram “doutores”;
. Na época de Getúlio e Perón, políticos
importantes iam ao seu cabaré para tratar de assuntos internacionais;
. Aliás, era comum dizer que, em Uruguaiana, havia
apenas dois pontos turísticos: a ponte internacional e o cabaré do Ivo;
. No carnaval, Ivo costumava ser destaque do bloco
do Clube Caixeiral. Usava sempre a fantasia mais luxuosa dos desfiles. Era
ovacionado. Para evitar a debandada geral do público, desfilava por último.
Depois que ele passava, muitos iam embora; tinham ido até lá apenas para vê-lo;
. Nos bailes de carnaval, ele e sua “corte”
passavam para cumprimentar os foliões. Era anunciado... Recebia aplausos
enquanto dava um giro pelo salão. Agradecia. E logo ia embora. Isso era
tradicional. Ou seja: a ilustre visita do Ivo Rodrigues em vários clubes da
cidade fazia parte da programação do baile;
. Não se
sabe muito bem o real motivo, mas chegou um momento em que o cabaré do Ivo começou
a decair. Parece que uma filha de criação montou outra casa – a contragosto do
pai. A jovem fora criada em colégios caros, o pai não queria que ela seguisse
naquele ramo. Mas a filha não só montou um cabaré maior e mais moderno, como
fez concorrência direta... Daí veio o fim dos dias de glória do Ivo. Alguns
comentam que isso aconteceu mais por desgosto do que por ele, de fato, ter perdido a
mão no ramo dos grandes bordéis;
. Pobre, velho e com a saúde debilitada devido ao uso abusivo de álcool nos últimos tempos, foi
durante uma briga de rua em fevereiro de 1974 que o Ivo morreu. Tinha 66 anos;
. Mesmo nessa fase final, decadente e já quase
esquecido, uma multidão foi ao seu velório e acompanhou a pé o caixão pela
avenida Duque de Caxias até o Cemitério Municipal. Calçadas lotadas... do mesmo
jeito que elas ficavam nos desfiles de carnaval, quando Ivo se exibia para receber todos os aplausos;
. Hoje, em Uruguaiana, Ivo Rodrigues é nome de rua,
escola de samba e, no dia de Finados, dizem que há romarias para prestar
homenagens em seu túmulo;
. Parece que há um projeto (ainda não aprovado) para
que seja esculpida uma estátua em sua homenagem... Mas os tempos mudaram.
Claro que muitas “passagens” desta história podem ser puro
folclore. Na “biografia” dos mitos, a realidade acaba se misturando à fantasia.
Ainda vou pesquisar mais sobre a trajetória do Ivo... Um desafio que talvez possa
render um novo trabalho.