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sábado, 1 de fevereiro de 2014

País do "poder, pode... mas escondido”


No início da década de 1970, quando foi lançado Último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando e Maria Scheneider na famosa cena em que o protagonista (que, até determinado momento do filme, é o macho típico, o galã etc.) pede para a amante penetrá-lo com os dedos, lubrificando-os com manteiga... Nossa, que heresia! Logo o Marlon Brando, um dos maiores astros de Hollywood! Claro que o filme foi, por muito tempo, proibido no Brasil (como aconteceu com Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, Império dos sentidos, de Nagisa Oshima, e tantos mais), porém vários casais do Sul (com boas condições financeiras, claro) iam assisti-lo em Montevidéu ou Buenos Aires. Se não me engano, até na cidade que faz fronteira com Uruguaiana, Passo de los Libres, o tal filme “contra a moral e os bons costumes” era exibido em sessões lotadas, filas imensas se formavam nas calçadas.

Mais adiante, 1992/93, quando ganhei uma bolsa para estudar teatro em uma universidade de Tandil, Província de Buenos Aires, pude ver uma produção argentina em televisão aberta, por volta das nove da noite, na qual duas moças apaixonadas se beijaram na boca, beijo de língua em close máximo. E nossa mesa de jantar (eu morava com uma família de classe média argentina) seguiu sem grandes abalos. “Fraquinha esta história”, foi esse o comentário da matriarca da casa, dona Ticiana.


Recentemente, de volta a Buenos Aires a passeio, estávamos caminhando pela Corrientes, de madrugada, quando, de repente, meu companheiro e eu vimos dois gays sendo importunados por um homem: “Ah, que bonito! Posso tirar uma foto de vocês se beijando? Assim, de mãos dadas pela rua, também. E me digam: como a gente faz para ter um amor tão ‘bonitinho’ como o de vocês” Tudo em tom de gozação, para intimidar os dois. Ah, é verdade, o tal homem era um brasileiro visivelmente bêbado. Aqueles rapazes argentinos não o denunciaram. Podiam chamar a polícia; na Argentina há leis que dão garantias e amplos direitos civis a casais homoafetivos. No Uruguai, também. Não, no Brasil, não. Igrejas e supostas sagradas famílias não permitem e blablablá.


Temos, infelizmente, algum problema em relação a sexo, sexualidade, nudez etc.  Biquínis podem ser mínimos na praia, seios e bundas ficam de fora durante os desfiles de escolas de samba... Mas topless é proibido... Praias naturistas, então, poucas e frequentadas apenas por “degenerados”, “gente desavergonhada”, “sodomitas” etc. Claro, também vale citar o caso da atriz Betty Faria, que quase foi condenada a usar burca por ter cometido a “infâmia” de exibir sua verdadeira idade em um biquíni numa badalada praia carioca. “Que horror”, bradaram em coro na internet, “logo a Betty Faria, a nossa eterna Tieta!” E por aí segue a boçalidade...


Em sua obra, Nelson Rodrigues era mestre em abordar esse recalque da classe média brasileira. Há, digamos, uma trava esquisita na nossa libido. Em A falecida, por exemplo, Zulmira, uma dona de casa típica, religiosa e insuspeita, passa a vida falando mal de Glorinha, prima do marido. Segundo ela, aquela Glorinha é um péssimo exemplo de mulher, liberal demais, loira de farmácia, lasciva... Zulmira (para o marido): “Vou te dizer mais o seguinte... Glorinha tem parte com o demônio!” Nas cenas finais, depois de morrer em decorrência de um câncer, o marido da protagonista descobre que, certo dia, ela (que bancava a santa) o traiu descaradamente no banheiro feminino de uma sorveteria na Cinelândia, com um homem de posses, enquanto ele (sim, o marido corno) a aguardava na mesa. E ela ainda teve outros encontros com o amante rico. Certa ocasião, de braços dados com ele na rua, deu de cara com a Glorinha, que, dali em diante, Zulmira passou a chamar de “arrogante” e “safada”.  


Por último, é bom falar do tão “nocivo” Big Brother Brasil... Não seria esse programa um bom “apanhado” das nossas máscaras sociais? Os participantes andam em trajes mínimos, rebolam sensualmente, insinuam-se aqui-ali, falam palavrões... Mas nudez total, jamais! “E minha família, o que vai pensar de mim?” Carícias íntimas? Só embaixo do edredom. Ali, tudo bem, “ninguém vê nada”. Lembrando que até no Big Brother angolano os integrantes costumam tomar banho nus, sem o menor acanhamento. Não há tarjas, nem cortes de edição. E os homens acordam excitados. Afinal, são sujeitos normais. Em outras partes do mundo, edredom pra quê? “Se querem nos ver”, devem pensar, “mostraremos que somos pessoas comuns”. Pretensamente, é um jogo da verdade, não? Assim, os falsos serão eliminados pelos voyeurs que ficam do outro lado da tela. Ora, quem não gosta de espiar a vida alheia, que mude o canal. Pronto: tá resolvido o “problema”. De certa forma, os participantes daqui (que somos, doa ou não, nós mesmos, digo, “os bisbilhoteiros de plantão”) também mostram aquilo que eles são: personagens dúbios, socialmente reprimidos, falsos moralistas. E isso, claro, nos açoita diariamente. Espelho é, sem dúvida, algo muito, muito cruel, não?


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Bodas de tédio



Vinte anos depois, deitado no quarto e vendo o mesmo canal de sempre, um casal (qualquer tipo)tenta mudar a rotina:
— Cansei disso.
— Eu também.
— Que tal se a gente fizesse algo diferente?
— O quê?
— Encher a cara?
— A última ressaca ainda nem passou...
— Brigar?
— Até com faca a gente já se atacou, lembra? Perdeu a graça...
— E sexo?
— Com quem?
— Nós dois, que acha?
— Afinal, você quer fazer algo diferente ou trágico?
— Melhor mudar de canal, então.
— Pois é...                                
(ad infinitum...)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Saudade X objetos de solidão

Quem me conhece, sabe que sou péssimo com relógios e calendários. Daqueles que precisam de calculadora para saber a idade, sou desse time. Mas aqui vai uma boa dica para "cair na real": dia desses, precisei dar uma folheada na agenda telefônica; queria encontrar um número antigo (talvez matar uma saudade). Foi um choque... Parentes, amigos e conhecidos que ainda não haviam batido as botas, no mínimo, já estavam com a ampulheta da vida "nos últimos grãos de areia". E os que foram cruzando recentemente o meu caminho...? Bem, esses podem ser encontrados com facilidade no meu celular (que, aliás, vive desligado).
 

Na minha opinião, anotações tinham mais serventia. Havia um charme em buscar nomes no papel.
 

A verdade é que esses objetos de solidão atuais, com comandos frios e instantâneos... tudo isso me entedia.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O bordel das deixadas



[Trecho de um novo conto em construção...]


    Valquíria ajeita a tiara que prende sua peruca de cachos ruivos e, antes de se afastar do balcão da boate, olha de soslaio para a colega entristecida num canto. Querendo animá-la um pouco, sugere:

    — Acho que você precisa melhorar a fachada, Lurdes.

    — Tô acabada, né?

    — Um bagaço.

    — Com o tempo, ficar bonita custa mais caro. E ando dura, Val. Ultimamente, pego só refugo das mais novas.

    — Moleza, bobinha. Tabefe é botox de puta pobre. Vai lá, azucrina bem o teu gigolô. Depois, é só ajeitar bem a cara para receber as bofetadas: uma de cada lado... e a última, de preferência, direto na boca. Espicha as pregas da cara rapidinho. Daí, basta aplicar duas demãos de pancake e caprichar nas sombras escuras, no batom vermelho e na transparência dos panos. Olha só pra mim, não tô um escândalo hoje? Levei alguns de manhã e outros sopapos agorinha mesmo, antes de vir trabalhar. Tô quase zero quilômetro de novo, não? Claro que o meu bofe não é doido de me bater forte. Afinal, não vai querer estragar o ganha-pão dele, vai? São tapinhas de amor de macho, apenas isso. Ele se sente meu dono... e eu me renovo na zona. Recauchutagem instantânea. Hoje, por cima de mim, vai ser um cliente atrás do outro a noite inteira. Sairei daqui mancando de tão assada, mas com a bolsa cheia. Acho que, no fundo, gostam de sentir que teve um, mais macho que eles, que já passou por aqui... — bate entre as pernas e acaricia os hematomas do rosto antes de completar: — ... para deixar o território bem demarcado. Freguês muito frequente, viciado em puta, é um tipo de bicha enrustida, só pode ser. Não é por causa da mulher, mas pelo rastro deixado por outros machos que eles lançam longe aquele jato branco e gosmento. Chamam de gozo; pra mim, é que nem mijo.



© Felipe Greco                              
                                        

 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Espelho, espelho meu... o tempo passou, fodeu!


No pós-40 (e já quase pré-50),
entrei numa fase, digamos, "minimalista":
sociofobia galopante 
(gente em volta, raridade),
pouca luz
(de preferência, nenhuma)
e aversão a espelhos
(se for inevitável olhar para minha imagem refletida, tiro os óculos para dar uma filtrada no estrago).
O tempo é sádico.
 
 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Os da rapinagem...


Acredito que muitos conheçam a lenda da águia que, por volta dos 40 anos, assim como nasceu e chocou seus ovos, retorna ao topo de alguma montanha para bater com força e obstinação seu velho bico contra as rochas... até arrancá-lo. Sem comer e no frio, aguardará pacientemente... Daí, quando o novo bico crescer, ela começará a arrancar as próprias penas e garras. Um tempo depois, renovada, baterá suas asas e voltará à rapina.

Pode ser um exagero, claro, "alegoria" cheia de boas intenções, apenas fruto da nossa imaginação, porém conheço alguns que, “renascidos” ou não, jamais abandonam a rapina (não apenas por uma questão de sobrevivência, como é o caso da águia, mas por mau-caratismo mesmo).