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domingo, 11 de setembro de 2011

Gente que nasceu para modificar a paisagem


Cresci cercado de amigos com muito talento para desenho e pintura. E eu ficava boquiaberto ao ver como eles criavam imagens maravilhosas... do nada. Bastava um pedaço de papel, um lápis ou caneta e pronto: criações fantásticas surgiam em segundos! Um deles é o Marco Tarragô; o outro, Severo Luzardo. O primeiro se consagrou como estilista de alta costura em Porto Alegre. O segundo, bem-sucedido em grandes empresas de moda, decidiu virar a mesa. Depois de pedir demissão de um alto cargo executivo em uma grife famosa, retomou um antigo sonho: ser carnavalesco no Rio de Janeiro – no Sul, ele já havia conquistado vários títulos de campeão. 
A última vez que nos encontramos foi no lançamento do meu primeiro livro, Caçadores noturnos, na capital gaúcha. Por coincidência, era um momento de transição tanto para ele quanto para mim, que também havia deixado uma multinacional para investir em literatura. E me recordo de uma conversa que tivemos no carro, quando ele foi me buscar no aeroporto. Assim como eu, o Tuca (apelido carinhoso do nosso tempo de guri) estava inseguro. Ele queria muito investir nessa área de desfiles, shows, carnaval etc. Sabia que tinha vocação e talento para se dar bem. Porém, canceriano que nem eu, mantinha os pés no chão: seria preciso lutar muito contra adversários poderosos. E lutou! E começa a mostrar que não estava enganado! E mostrará muito mais, não tenho a menor dúvida! Em pouco tempo, além de se preparar para a Sapucaí, o Tuca já assinava figurinos de época em importantes e premiadas produções da Rede Globo (especiais e telenovelas, como o remake de Ciranda de pedra...).
Sinto MUITO ORGULHO desses meus amigos de infância. Embora fisicamente afastados, estamos sempre unidos em pensamento – também na torcida. Amizade é isso, estar longe e perto ao mesmo tempo. Sem cobranças. Parabéns, meu amigo, pela ARTE de ser esse cara EXTRAORDINÁRIO que você sempre foi!

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Planejamento faz Império da Tijuca sair na frente na produção do carnaval

Não é raro ver dirigentes das escolas de samba do Grupo de Acesso e, até mesmo do Grupo Especial, reclamarem da escassez de recursos para colocar um desfile na Avenida. De fato, a pequena subvenção de pouco mais de R$ 400 mil para as agremiações do Grupo A, somada à dificuldade para arrecadar dinheiro com os eventos na quadra, não dão às escolas muitas opções. Porém, o Império da Tijuca, vide o Carnaval 2011 e a adiantada preparação para 2012, vem mostrando que planejamento bem feito e a perfeita sintonia entre as suas cabeças pensantes podem superar um desfile farto financeiramente. A reportagem do CARNAVALESCO visitou os dois ateliês e o barracão da agremiação do morro da Formiga, e constatou que cerca de 66% das alas, além de duas alegorias estão prontas.

No comando da Verde e Branco desde 2004, Antônio Marcos Telles, o Tê, lembra o momento vivido pela escola que, após o elogiado desfile no Carnaval 2011, amargou um decepcionante sétimo lugar. Para ele, não há segredo, a receita é a dedicação.
 
- Eu não faço carnaval para me manter no grupo. Quero chegar ao Especial e faço com que a minha escola desfile com aquilo que tem de melhor. Quando estava no Grupo B, pensava em fazer desfile de Grupo A, e agora, vou colocar uma escola de Grupo Especial na Avenida. Pode anotar o que eu digo: quando as pessoas verem a quinta escola de sábado entrando na Sapucaí, pensarão que é a primeira de domingo – disse, referindo-se à ordem de desfile do Império da Tijuca – Nós começamos a trabalhar muito cedo no Império. Desta forma, conseguimos materiais com maior facilidade e damos qualidade na confecção das fantasias e alegorias – completou.
Outro fator que contribui para o bom momento da Verde e Branco tijucana é a sintonia com o carnavalesco Severo Luzardo, nome em evidência após o último carnaval. Severo mostra-se muito contente na escola e comemora a liberdade conseguida para colocar em prática o seu talento.
 
- Gosto de apostar no lado humano do carnaval. No Império da Tijuca, tenho a liberdade para desenvolver um trabalho de artesanato na construção das alegorias e fantasias. Não abro mão também de desenvolver a minha escala cromática, que é algo que vem agradando às pessoas que acompanham o carnaval. Somos muito responsáveis e disciplinados com o que a escola representa para a comunidade. Vamos para a Avenida para ganhar. Parece cair no lugar comum falar isso, mas aguardem o Império da Tijuca. 2012 será melhor do que 2011 - disse ele, adiantando que relacionou 50 lugares utópicos para mostrar durante o desfile.

O artesanato, característica marcante do trabalho de Severo, poderá ser conferido logo no abre-alas, que contará com seis mil formas esculpidas à mão. Ele também aparece claramente nos detalhes das fantasias em exposição nos ateliers da escola. 16 das 24 alas do Império da Tijuca já estão prontas. Outras duas devem ser entregues até o fim de setembro.
Perguntado de onde tira dinheiro para começar o trabalho da escola de forma tão precoce, para os padrões do Grupo de Acesso, Tê dá uma declaração que pode dar a noção exata do quanto se dedica à escola.

- Tiro do meu próprio bolso para fazer muitas coisas dentro do Império da Tijuca. Por isso começamos cedo. Com mais tempo, temos a oportunidade de gastar menos e escolher materiais que não acharíamos em novembro, dezembro. A subvenção só vem no final do ano e aí consigo dar uma aliviada na minha situação financeira, mas, mesmo assim, ainda ficamos devendo bastante. Apesar disso, estamos reduzindo a nossa dívida. Há dois carnavais devíamos mais de R$ 700 mil. Depois do Carnaval 2011, passamos a dever cerca de R$ 500 mil. Daqui a um ano vamos dever ainda menos. Aos poucos vamos nos ajeitando. Tenho certeza que será mais uma porrada do Império da Tijuca este ano na Sapucaí!

Desde 1996 sem desfilar no Grupo Especial, o Império da Tijuca já fez parte da elite do carnaval carioca em 20 ocasiões, a primeira delas em 1946. Em 2012, a escola buscará o quarto título do Grupo de Acesso A de sua história com o enredo 'Utopia - Viagem aos confins da imaginação'



 
 
(Fonte: COUTINHO, Rodrigo. O Terminal. Carnavalesco. Disponível em: <http://www.oterminal.com.br/carnavalesco/detal_carnavalesco.php?car_id=1181#.Tmk6BUB86ao.facebook>. Acesso em: 11 set. 2011.)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Se não mato, morro!


Certa vez, li que só percebemos a nossa “velhice” quando começamos a fazer críticas às novas gerações. Não sei se isso é verdade, porém, de uns tempos para cá, tenho notado que a maioria dos jovens de hoje não é muito chegada a certas delicadezas que fazem (faziam?) parte da boa convivência em sociedade. Sim, estou falando da (e acredito que démodé) BOA EDUCAÇÃO! Infelizmente, é cada vez mais comum não recebermos de volta uma resposta adequada aos nossos cumprimentos, sorrisos, gestos, enfim, atitudes de pura cordialidade. Isso sem falar nas tentativas frustradas de manter um diálogo mínimo com algum estranho. E nem precisa ser alguém, assim, tão desconhecido. Ao passarmos com nossas compras em um caixa de supermercado ou farmácia, por exemplo, devemos nos limitar a pagar, e nada mais. É perda de tempo dizer “olá, como vai?” ou “obrigado”. Tolice; não seremos ouvidos! Antes, eu ainda insistia, acreditando que não falara suficientemente alto e claro. No máximo, o que eu recebia de volta era um sorrisinho anêmico e/ou um olhar de tédio. Em seguida, as perguntas automáticas: “Mais alguma coisa, senhor? Vai querer CPF na nota?”
De modo que fui desistindo de bancar o idiota simpático. Acabei me transformando no idiota arrogante. Entre o primeiro e o segundo complemento, prefiro aquele que, no mínimo, não me deixa em desvantagem em relação aos meus atuais inimigos. Ou seja: não cumprimento mais. Também não peço licença/desculpas. E até evito olhar nos olhos de quem não conheço. No meu tempo (olha aqui meu atestado de idade!), não olhar nos olhos das pessoas era sinal de arrogância e/ou falta de sinceridade. Não, eu não era assim. Acontece que para sobreviver tive que aprender a ser esnobe, intocável, perigoso!
Pois não era desse jeito que preparavam (ainda preparam?) os cães para a guerra? Ou seja: quando ainda filhotes, os bichos eram amarrados em um local escuro, frio e úmido. De tempo em tempo, vinha um instrutor para jogar água neles, espancá-los com correntes, pedaços de pau. No começo, os animais se esquivavam, tentavam fugir, ganiam. Dias depois, percebendo que de nada adiantaria demonstrar medo ou dor, em vez de recuar, avançavam. Ótimo! Era sinal de que os cães estavam prontos para os campos de batalha. Nada mais iria assustá-los.
Às vezes, é mais ou menos dessa forma que me sinto em São Paulo: em eterna vigília de combate. Ressabiado, antes de ser atacado, arranco os pinos das minhas granadas e salto da minha trincheira, dentes arreganhados, feroz, sanguinário.    

domingo, 4 de setembro de 2011

Quanto mais quente, melhor!


Nasci em uma região de extremos... No inverno, faz um frio de “congelar os ossos”. No verão, até o asfalto derrete. Exagero? Pois um amigo achava que eu exagerava. Insistiu tanto, que foi passar alguns dias de férias em Uruguaiana (RS). Pleno verão. Dezembro. Comecinho de janeiro. Quase enlouqueceu de tanto calor. E para piorar a situação, faltou energia elétrica. Ou seja: acho que ele nunca mais vai duvidar das coisas que eu falo.
Mesmo assim, prefiro os dias de calor aos de frio e chuva. Ainda que muitos digam que no inverno as pessoas ficam mais elegantes e bonitas, discordo. No verão, ficamos mais leves, mais sorridentes, mais tudo. O que o inverno tenta reprimir, o verão “escancara”. Gosto disso. No calor, gatos são gatos; lebres, apenas lebres. Melhor assim, não? O risco de errar na "compra" é menor.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O que foi, nunca mais será

Para explicar meu gosto por narrativas de ficção, costumo dizer que, em vez de mamadeira... quando nasci... ganhei um livro. Ou seja: mesmo antes de ser alfabetizado, eu já tinha verdadeiro fascínio por "histórias inventadas". 
   Meu pai foi projecionista por muitos anos, antes de se tornar relojoeiro e se aposentar como técnico em eletrônica. Assim, depois das histórias que “se escondiam” nos livros, passei a me encantar com as que “moravam” nas salas escuras dos cinemas. Como eu vivia em uma cidade do interior, as cópias dos filmes costumavam chegar lá com certo atraso – e, claro, bem danificadas. Por ser muito pequeno, eu não conseguia entender como “as pessoas” dos filmes não se molhavam com “tanta chuva”. Chovia sempre. Não parava nunca de chover. Mesmo com sol forte, era aquela chuvarada sem fim.
   — Se tem sol, se os cabelos continuam secos e nem mesmo o cigarro deles apaga... Que diabo de chuva é essa, pai, que não para nunca de cair nos filmes?
   — Não é chuva, filho, é risco.
   — E o que é risco?
   — Um tipo de chuva que não molha — disse meu velho, percebendo que seria inútil tentar me explicar o que, bem no fundo, eu não queria entender.
   E foi assim que essa mania de gostar de contar histórias grudou em mim, não me largou mais. Meu pai é o grande culpado! E Cinema Paradiso, dirigido por Giuseppe Tornatore no final da década de 1980, é quase a história da minha infância. Devo ter assistido mais de vinte vezes. Cinco, em um único dia, no saudoso Cine Arouche. Chorei muito na sala escura, sozinho. De saudade do meu velho. Também daquele menino sonhador e ingênuo que... em algum trecho da minha própria história (aliás, bem menos interessante que as dos filmes e livros)... eu tinha deixado de ser.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Realidade x Ficção




Realidade 1:
Um homem mais velho e outro mais novo foram praticamente linchados durante um rodeio (detalhe: o primeiro teve parte da orelha decepada por uma mordida).
O “crime” que eles cometeram?
Ora, abraçaram-se em público, demonstrando afeto entre PAI e FILHO!
Realidade 2:
Saindo de uma balada, quando se aproximavam da esquina da Rua Augusta com a Avenida Paulista, dois rapazes foram atacados com garrafadas e golpes de lâmpadas fluorescentes (sim, virou moda em São Paulo, já deve haver franquia para vender lâmpadas no bairro dos Jardins).
O “crime” que os baladeiros cometeram?
Ora, PARECIAM HOMOSSEXUAIS!
Realidade 3:
Uma estudante de psicologia sufocou, esfaqueou e ocultou em um canil o corpo do próprio filho recém-nascido, depois de ter escondido (como?) dos tios a gravidez.
O “crime” que o bebê cometeu?
Ora, NASCEU de um suposto caso da mãe com outro sujeito (sim, parece que ela já tinha um namorado em outra cidade)!
Ficção:
E eu vou continuar produzindo textos de ficção para quê? Para quem? A concorrência é desleal!

domingo, 28 de agosto de 2011

Nova Idade Média


 Hoje, foi realizado na Praça Vinicius de Moraes (em frente ao Palácio do Governo) um manifesto chamado “SOS Morumbi”. A intenção: mobilizar moradores da região e autoridades no sentido de combater a violência no bairro. Aqui, assaltos, roubos, sequestros e homicídios são frequentes. Segundo o UOL Notícias, “na quinta-feira (25/08), o governador de São Paulo anunciou o reforço do policiamento na região, 158 homens, 26 viaturas da Força Tática e 80 motos da Polícia Militar, cedidos por vários batalhões de São Paulo, fazem parte da força-tarefa com o objetivo de diminuir as taxas de criminalidade no bairro.” Sim, é verdade que as ruas estão cheias de viaturas. Mas até quando? É preciso haver ações de inteligência, polícia investigativa para encontrar os chefões, aqueles que armam os menores (chamados “noias”) para praticarem os crimes. 

 
Para quem não conhece, o Morumbi é um bairro que se confunde com vários outros, como Real Parque, Jardim Guedala, Vila Andrade, Paraisópolis, Vila Sônia... Ao contrário do Rio de Janeiro, em que as favelas estão no alto dos morros, a comunidade de Paraisópolis (que tem cerca de 80 mil habitantes) está numa espécie de cratera. Em volta e no alto, casas e condomínios de luxo. E as construtoras avançam cada vez mais em direção aos barracos (já nem tão barracos assim; a maioria é de alvenaria, com dois, três, até quatro andares). Não importa. O dinheiro fala mais alto, e as casas são demolidas. Sem dúvida, é uma panela de pressão pronta para explodir. Neste contexto, recrutar novos “noias” não é tarefa tão complicada. E creio que a “recompensa” não seja apenas um punhado desta ou daquela droga, mas um “barato” muito maior: poder extravasar todo o ódio acumulado!

sábado, 27 de agosto de 2011

Família?

Enquanto religiões e outros setores tão ou até mais retrógrados da sociedade atacam a união civil entre pessoas do mesmo sexo e o direito de gays ADOTAREM filhos, tomo a liberdade de transcrever neste espaço o assombroso depoimento de Severina da Silva, agricultora de 44 anos, desde a infância abusada sexualmente pelo pai BIOLÓGICO. Detalhe: com o consentimento da própria mãe BIOLÓGICA.
É esse modelo de família que deve ser “preservado” com “unhas e dentes”?
Será que não está na hora de deixar a hipocrisia de lado e repensar nossos (pre)conceitos?  

·······

Eu nunca estudei, nunca tive amiga, nunca arrumei um namorado na vida, nunca saí para ir a uma festa. Até os 38 anos, vivi assim, e foi assim até quando me desliguei do meu pai, no dia em que ele foi morto.
Meu pai não deixava eu e minhas irmãs fazermos nada. Toda a minha vida eu sofri. Comecei a trabalhar na roça ainda menina, com seis anos, arrancando mato.
Aos nove, fui com meu pai para o roçado. No caminho, ele me levou para o mato, amarrou minha boca com a camisa, me jogou de cabeça e tentou ser dono de mim. Eu dei uma pezada no nariz dele, e ele puxou uma faca para me sangrar.
A faca pegou no meu pescoço e no joelho. Depois, ele tentou de novo, mas não conseguiu ser dono de mim.
Em casa, contei para minha mãe e ela me deu uma pisa. Fiquei sem almoço.
À noite, minha mãe foi me buscar e me levou para ele. Me botou de joelhos na cama, tampou minha boca com o lençol e pegou nas minhas pernas para ele pular em cima. Eu dei um grito e depois não vi mais nada.
No outro dia, fui andar e não pude. Falei: "Mãe, isso é um pecado, é horrível". E ela: "Não é pecado. Filha tem que ser mulher do pai."
A partir daquele dia, três dias por semana, ele ia abusando de mim. Com 14 anos, eu engravidei. Tive o filho, e ele morreu. Eu tive 12 filhos com meu pai. Sete morreram. Seis foram feitos na cama da minha mãe. Dormíamos eu, pai e mãe na mesma cama.
Um dia, uma irmã minha disse que estava interessada em um namorado. O pai quis pegar ela, disse que já tinha um touro em casa, e que não era para ninguém andar atrás de macho lá fora.
Eu mandei minha mãe correr com minha irmã, e ele correu com a faca atrás. Depois disso, minha mãe não ficou mais com ele. Foram todos embora para Caruaru, para a casa do meu avô. Ela e as minhas oito irmãs.
Só ficamos eu e meu pai na casa. Eu tinha 21 anos, e ele sempre batia em mim. Tentei me matar várias vezes, botei até corda no pescoço.
Os filhos nasciam e morriam. Os que vingavam foram se criando. Minha filha estava com 11 anos quando ele quis ser dono dela. Falou assim: "Nenê está engrossando perninha? Tá saindo peitinho, enchendo a melancia? Tá bom de experimentar, que é para ir se acostumando." E tacou a mão nela.
Eu falei: "Seu cabra da peste, está escrito na minha testa que eu sou Maria-besta? Eu sou filha de Maria, mas besta eu não sou." E ele: "Rapariga safada, Maria era mulher para todo acordo. E tu, não tem acordo?"
Nessa hora, eu disse para ele: "Se você ameaçar a minha filha, você morre. Minha mãe aceitou, mas eu não." Meu pai me bateu três dias seguidos, deu um murro no meu olho que ficou roxo.
Na segunda, ele amolou uma faca e foi vender fubá [farinha de milho]. Antes, disse: "Rapariga safada, quando chegar, se você não fizer o acordo, vai ver o começo e não o fim."
Eu respondi: "Ô pai tarado da peste, se você ameaçar a minha filha, você morre." Ele foi para a feira e eu, para a casa da minha tia. Lá, mostrei meu corpo lapeado, o olho roxo, o ouvido estourado.
Meu pai tinha amolado uma faca de 12 polegadas na segunda-feira à noite e me mataria na terça se eu não fizesse o acordo. Foi quando paguei para matarem ele.
Peguei um dinheiro que tinha guardado, fui para Caruaru e, na casa do Edilson, paguei R$ 800 na hora.
Quando o pai chegou, o Edilson veio acompanhando. Foi quando acabou a vida dele. O rapaz arrumou um amigo e fez o homicídio. A faca que ele havia comprado, interessado na minha vida, ele morreu com ela.
A minha filha, a filha dele, eu salvei. Quem é pai, quem é mãe, dói no coração. Levar a sua filha para a cama, abrir os quartos dela, como a minha mãe fez, e o pai ir para cima da filha? Eu, como passei por isso, jamais iria aceitar.
Antes disso, eu ainda procurei os meus direitos, mas perdi. Há uns 15 anos, fui na delegacia, mas ouvi o delegado falar para eu ir embora e morar com o velhinho (o pai), que era uma boa pessoa.
O homicídio foi no dia 15 de novembro de 2005. No cemitério, já tinha um carro de polícia me esperando. Na cadeia, passei um ano e seis dias. Fiquei no castigo, depois fui para uma cela.
Depois do julgamento, fiquei feliz. Antes, pensava na liberdade e na cadeia ao mesmo tempo. Agora, quero viver e ficar com meus filhos. Quero que minha história sirva de exemplo, para que os pais e as mães procurem respeitar os seus filhos, ser amigos deles. A gente é pobre, mas pobreza não é desonra. Desonra é o cara fazer do próprio filho um urubu.
A partir de hoje eu quero é viver, porque tenho muita coisa para aproveitar pela frente. Tenho a liberdade e os meus filhos comigo.


(Guibu, Fábio. Folha de São Paulo, Cotidiano. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/966007-minha-mae-me-levou-pra-ele-conta-mulher-abusada-pelo-pai-em-pe.shtml>. Acesso em: 27 ago. 2011)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"O tempo não para"

É engraçado como vamos aprendendo a lidar com o Tempo (antes, eu não escreveria com inicial maiúscula, mas agora...). Na minha adolescência, eu sequer me imaginava ultrapassando a “barreira” dos 40. Barreira, sim! Barra, barreira, obstáculo! Em uma sociedade voltada para a produção e o consumo de bens e serviços, aquele que não produz “mais” ou passa a consumir “menos”... vai se transformando em um “fardo”, algo que precisa ser “carregado” (pelo Estado, pela família e, principalmente, por si próprio – uma vez que passamos a acreditar que, socialmente, já não somos mais “tão úteis”). A palavra de ordem é: vamos, então, “ampliar” ao máximo a nossa juventude! E recursos não faltam. À medida que aumenta a expectativa de vida, maior é a oferta de remédios, cosméticos, tratamentos estéticos etc. Ora, não basta ficar vivo por mais tempo, é preciso ter saúde. Porém não basta ter saúde, é preciso parecer jovem, produtivo, útil. Enfim, o sujeito não pode se entregar, nem se tornar um peso morto (seja para quem for). Ser belo, ter músculos definidos, sorriso impecável e parecer jovem (aos 40, 50, 60 anos...) significa que aquela pessoa sabe se cuidar, tem autocontrole, é, sim, uma vencedora. Em outras palavras (para ser mais realista): o infeliz ainda presta para alguma coisa. E assim, a indústria da “saúde”, grande beneficiada com essa corrida desatinada contra o Tempo, contabiliza lucros astronômicos. Mas a verdade é que se ilude aquele que acredita que pode enganar o Tempo. Lamento, mas... não engana, não! Acaba se transformando em escravo de uma falsa imagem de juventude, uma caricatura de si próprio, mais um fantoche manipulado pelo sistema (pelas políticas públicas do biopoder).

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Bicho homem

No Rio Grande do Sul (sou de Uruguaiana), existe o "rodeio crioulo", semelhante ao de Barretos (SP), porém mais ligado às tradições gaúchas, do homem do campo etc. Quando eu era pequeno, achava tudo aquilo uma estupidez sem tamanho. No campo, na lida diária dos homens das fazendas, ainda vá... Mas não entendia a razão de animais (a dor e o desespero desses bichos) servir de divertimento ao público. Recebi muitas críticas (de familiares, inclusive). Alguns diziam que eu não gostava de ser gaúcho; outros, que eu era “mulherzinha”. “Bichinha é que tem essas frescuras”, bradavam. Bem, como eu era muito pequeno, ainda não entendia um monte de coisas. Sabia, no entanto, que não era nada bom ser chamado de mulherzinha. Na escola, outros iguais a mim (sensíveis e que não curtiam maus-tratos a animais) também eram perseguidos e “catalogados” como bichinhas (embora ainda nem soubéssemos o que era, de fato, ser “bichinha”). Em contrapartida, bem no fundo, eu gostava de não ser igual aos que me perseguiam, como faziam com aqueles animais do tal rodeio crioulo. Eu não queria agir (em nome de uma convenção social para o gênero masculino) feito um troglodita. Na minha visão (“torta” para muitos), animais irracionais eram aqueles peões desalmados, cavalgando e perseguindo bichos acuados e indefesos. Cresci. Continuo pensando como pensava naquela época. A diferença é que o medo de antes se transformou em força para lutar contra “certos machos” que, para se sentirem “mais machos”, chafurdam na barbárie. E pior: são ovacionados por isso. Não tenho nada contra as tradições, mas acredito que tudo tem que evoluir. 
Aprender a respeitar os animais, a natureza etc. certamente é o maior desafio humano para poder se libertar de todo tipo de ignorância.