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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Bodas de tédio



Vinte anos depois, deitado no quarto e vendo o mesmo canal de sempre, um casal (qualquer tipo)tenta mudar a rotina:
— Cansei disso.
— Eu também.
— Que tal se a gente fizesse algo diferente?
— O quê?
— Encher a cara?
— A última ressaca ainda nem passou...
— Brigar?
— Até com faca a gente já se atacou, lembra? Perdeu a graça...
— E sexo?
— Com quem?
— Nós dois, que acha?
— Afinal, você quer fazer algo diferente ou trágico?
— Melhor mudar de canal, então.
— Pois é...                                
(ad infinitum...)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Saudade X objetos de solidão

Quem me conhece, sabe que sou péssimo com relógios e calendários. Daqueles que precisam de calculadora para saber a idade, sou desse time. Mas aqui vai uma boa dica para "cair na real": dia desses, precisei dar uma folheada na agenda telefônica; queria encontrar um número antigo (talvez matar uma saudade). Foi um choque... Parentes, amigos e conhecidos que ainda não haviam batido as botas, no mínimo, já estavam com a ampulheta da vida "nos últimos grãos de areia". E os que foram cruzando recentemente o meu caminho...? Bem, esses podem ser encontrados com facilidade no meu celular (que, aliás, vive desligado).
 

Na minha opinião, anotações tinham mais serventia. Havia um charme em buscar nomes no papel.
 

A verdade é que esses objetos de solidão atuais, com comandos frios e instantâneos... tudo isso me entedia.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O bordel das deixadas



[Trecho de um novo conto em construção...]


    Valquíria ajeita a tiara que prende sua peruca de cachos ruivos e, antes de se afastar do balcão da boate, olha de soslaio para a colega entristecida num canto. Querendo animá-la um pouco, sugere:

    — Acho que você precisa melhorar a fachada, Lurdes.

    — Tô acabada, né?

    — Um bagaço.

    — Com o tempo, ficar bonita custa mais caro. E ando dura, Val. Ultimamente, pego só refugo das mais novas.

    — Moleza, bobinha. Tabefe é botox de puta pobre. Vai lá, azucrina bem o teu gigolô. Depois, é só ajeitar bem a cara para receber as bofetadas: uma de cada lado... e a última, de preferência, direto na boca. Espicha as pregas da cara rapidinho. Daí, basta aplicar duas demãos de pancake e caprichar nas sombras escuras, no batom vermelho e na transparência dos panos. Olha só pra mim, não tô um escândalo hoje? Levei alguns de manhã e outros sopapos agorinha mesmo, antes de vir trabalhar. Tô quase zero quilômetro de novo, não? Claro que o meu bofe não é doido de me bater forte. Afinal, não vai querer estragar o ganha-pão dele, vai? São tapinhas de amor de macho, apenas isso. Ele se sente meu dono... e eu me renovo na zona. Recauchutagem instantânea. Hoje, por cima de mim, vai ser um cliente atrás do outro a noite inteira. Sairei daqui mancando de tão assada, mas com a bolsa cheia. Acho que, no fundo, gostam de sentir que teve um, mais macho que eles, que já passou por aqui... — bate entre as pernas e acaricia os hematomas do rosto antes de completar: — ... para deixar o território bem demarcado. Freguês muito frequente, viciado em puta, é um tipo de bicha enrustida, só pode ser. Não é por causa da mulher, mas pelo rastro deixado por outros machos que eles lançam longe aquele jato branco e gosmento. Chamam de gozo; pra mim, é que nem mijo.



© Felipe Greco                              
                                        

 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Espelho, espelho meu... o tempo passou, fodeu!


No pós-40 (e já quase pré-50),
entrei numa fase, digamos, "minimalista":
sociofobia galopante 
(gente em volta, raridade),
pouca luz
(de preferência, nenhuma)
e aversão a espelhos
(se for inevitável olhar para minha imagem refletida, tiro os óculos para dar uma filtrada no estrago).
O tempo é sádico.
 
 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Os da rapinagem...


Acredito que muitos conheçam a lenda da águia que, por volta dos 40 anos, assim como nasceu e chocou seus ovos, retorna ao topo de alguma montanha para bater com força e obstinação seu velho bico contra as rochas... até arrancá-lo. Sem comer e no frio, aguardará pacientemente... Daí, quando o novo bico crescer, ela começará a arrancar as próprias penas e garras. Um tempo depois, renovada, baterá suas asas e voltará à rapina.

Pode ser um exagero, claro, "alegoria" cheia de boas intenções, apenas fruto da nossa imaginação, porém conheço alguns que, “renascidos” ou não, jamais abandonam a rapina (não apenas por uma questão de sobrevivência, como é o caso da águia, mas por mau-caratismo mesmo).


sábado, 19 de outubro de 2013

Eterno recomeço







Na mitologia grega, castigado por Zeus, Sísifo passou a carregar eternamente uma grande rocha até o ápice da montanha (quanto mais alto, maior se tornava o peso do rochedo e, óbvio, o cansaço daquele condenado). Mas, pouco antes de ele alcançar o topo, a pedra rolava de volta... Sísifo tinha, então, que fazer tudo de novo. 
É mais ou menos assim que nos sentimos ao final de cada trabalho: 
tendo que começar sempre do “zero”.