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segunda-feira, 28 de março de 2016

Eu contra mim mesmo




Já estive na tal Plaza de Toros, em Madri. Não entrei, claro. Jamais entraria para ver touradas... Mesmo sendo gaúcho, nem quando sangravam ovelhas/vacas (faz parte do "ritual" do churrasco nas fazendas) eu ficava por perto. Uma hipocrisia  de minha parte, admito... Afinal, ainda como carne... e animais são abatidos por alguém para que o bife chegue ao meu prato. Talvez um dia eu consiga mudar (evoluir?). Tomara!

Por outro lado, sempre detestei caçadas esportivas e vaquejadas (vaquejada: uma espécie de rodeio lá no Sul). É uma demonstração, na minha opinião, brutal, sádica e fora de propósito. Neste ponto, sempre tive sérios problemas de identificação com a tradição dos Pampas. Quando me levavam para ver aquilo, eu ficava furioso. Daí, um ou outro me chamava de mariquinhas. Eu também ficava furioso com isso (principalmente, porque nem sabia direito o que significava, mas era um "jeito 'negativo' de ser diferente" que me distanciava dos meninos; portanto, era algo que eu tinha que me tornava "inferior" e fazia com que me vissem como um "estranho"). Depois, com o tempo, já me "acostumando" com o "bullying" (diferente de outros "bullyings" – míope, baixo, gordo, judeu, negro, magricela, árabe, manco, surdo, dentuço etc. –, o do que não se encaixa nos padrões de gênero começa, ainda que de modo inconsciente/velado, bem antes, na própria família e/ou vizinhança, depois segue e se intensifica na escola, trabalho... e costuma ser "trancafiado" por muitos gays como uma bomba-relógio, um segredo muito dolorido dolorido, pelo resto da vida), fui impondo minha forma de pensar. Gostassem ou não, a opinião alheia já não me interessava tanto. Um mecanismo de autodefesa/sobrevivência, certamente... Cada um tem o seu.  

Mas confesso que para ver no campo uma "tourada" como a deste vídeo, eu iria, sim. É simbólica. A luta que travamos ao longo da vida contra a nossa verdadeira natureza. Pode ser feroz/indomável, mas não é nossa adversária/inimiga. Duelar... é bobagem. Melhor tentar aprender a viver/conviver com ela. 

"Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza?" ("Perdoando Deus", conto de Clarice Lispector). 

Esta é uma das epígrafes do meu novo trabalho de ficção... 

  

segunda-feira, 21 de março de 2016

Estoque de bodes expiatórios



Dona Marina Silva aparece como uma das mais cotadas para 2018... Então o jogo é: não suportamos os "radicais" (como são chamados os petistas e afins), nem queremos mais os "vendilhões do templo" (como são chamados os da direita: PSDB, DEM & Cia.), mas podemos dar um voto de confiança aos conservadores (unidos/fortalecidos em impacientes/inflexíveis bancadas evangélicas)? Ora, pensei que os protestos eram, no fundo, contra a falta de isenção no poder. Questão religiosa à parte, como poderá alguém tão apegado a determinados princípios governar com isenção para um país tão heterogêneo, complexo e culturalmente rico?   

Bem...

... das quase 600 páginas da importante obra de João Silvério Trevisan, Devassos no paraíso (atualmente, por incrível que pareça, fora de catálogo), repito aqui este trecho para que possamos refletir sobre o atual momento de fúrias e revoltas (histeria coletiva que pode nos levar a dar mais um "tiro no nosso próprio pé"; já demos outros ao longo da nossa história):

“A verdade é que a civilizaç
ão sempre precisou de reservatórios negativos que possam funcionar como bodes expiatórios nos momentos de crise e mal-estar, quando então, por um mecanismo de projeção, ela ataca esses bolsões tacitamente tolerados.” (Record, 2000, p. 22, 3 ed.)

E vamos em frente (ou para trás)... 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Meu Brasil brasileiro





Um (para o Outro, convicto): "Ora, latinos são os outros! Deus me livre! Bata na madeira! Sou alto, loiro, culto, tenho olhos azuis, sangue europeu (nórdico, claro!), um físico invejável e..."

O Outro (para Um, assombrado): "E uma cara de pau impressionante!"



domingo, 6 de março de 2016

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a serpente?




Um amigo, numa “amistosa”, "culta" e "exemplar" mesa de churrascaria, indignado com a violência urbana, a falta de segurança, juízes que soltam bandidos, também com os "famigerados" defensores dos direitos humanos etc., etc., etc., lá pelas tantas, já meio alto, sai com essa depois de ver na televisão uma matéria sobre um fulano que tinha sido amarrado nu a um poste e sofrido linchamento (só não foi queimado vivo, porque chegou a polícia para "salvá-lo"):

"Bandido bom é bandido morto! Tem que amarrar mesmo, bater, deixar morrer e apodrecer na calçada, servir de exemplo pra bandidagem!

O outro amigo, que ouviu tudo aquilo calado, ainda solteiro, sem filhos, dá uma bicada no vinho e lança do lado oposto da mesa:

"Bandido bom tem que ser linchado e morto, feito os acusados de bruxaria na inquisição?"

"Claro!"

"Mas... e se for um dos seus filhos?"

O "paizão" logo se encrespa com aquele "absurdo":

"Porra, meu filho... por quê?"

"Não", o provocador tenta dar uma amaciada,"é apenas uma hipótese."

"Filho meu nunca vai ser bandido, porra!"

"Não, claro que não. Mas se, por infelicidade, ele cair numa cilada do destino e o tomarem como culpado numa parada esquisita... e daí um bando de gente furiosa correr atrás dele, amarrar o coitado num poste, tirar toda a roupa e bater nele até matar...?"

"Bandido bom é bandido morto, meu filho não é, nem nunca vai ser bandido, tá entendendo?"

"Evidente que não, mas numa histeria coletiva não há garantias pra ninguém."

Sem ter mais o que argumentar, o pai ofendido rosna:

"Você nunca casou, não tem filhos, deve gostar de homem, sei lá, nem me interessa.... Não sabe a bobagem que tá falando."

O outro sorri (vencido?) e faz um aceno de cabeça, concordando:

"É verdade, você tem toda a razão. Daqui a pouco, assim que esgotar o estoque de culpados mais óbvios, não duvido que comecem a amarrar nos postes as bichas, as lésbicas, os judeus, os muçulmanos, os macumbeiros, os ateus, os pinguços, os drogados e assim por diante. O fascismo começa desse jeito."

"Fascista é ser uma pessoa honrada e ter princípios cristãos, hein, seu comunista desgraçado?"

Depois disso, conta paga pelo provocador, a mesa ficou vazia. Acabou o jantar, a “amizade”, tudo.



terça-feira, 1 de março de 2016

Nosso "mea-culpa"




Meu pai era bastante criticado por ajudar nas "coisas da casa" (ou, como diziam os "machões" de plantão: fazer "trabalho de mulher"): varrer, limpar banheiros, passar roupa, arrumar a cama, mandar suas camisas e calças para a lavanderia, pôr outras roupas na máquina, estendê-las no varal, recolher tudo aquilo, cuidar da horta e cozinhar (até hoje não comi um "arroz de carreteiro" melhor que o dele, feito na panela de ferro).

Cresci, sim, como me diziam em tom de gozação na escola, "numa casa invertida". Minha mãe era dona de salão de beleza e de loja, viajava muito. A bagunça da casa era por conta do pai. Quando ela viajava, víamos filmes até de madrugada na cama de casal... e, no dia seguinte, ele fazia o chimarrão e o melhor leite com Nescau do mundo. Ficava ali, sentado na minha cama, cuia de chimarrão em uma das mãos, mamadeira na outra. Sim, tinha mais essa "exigência": eu só tomava todo o leite, se ele segurasse a minha mamadeira. Só larguei a mamadeira quando comecei a estudar de manhã, lá pelos 8 ou 9 anos. Depois tive que usar aparelho nos dentes por mais de uma década, mas isso é só um detalhe insignificante... 

Digo hoje pra mim mesmo: "Puxa, que bom que meu pai andava na contramão de uma porrada de idiotices". Preconceito, foi uma das coisas que ele mais me mostrou que era uma furada, comportamento de gente tacanha. Futebol, ele não era fanático nem pelos jogos da Copa. Time, acho que nunca teve. Se teve/tem, não me lembro de tê-lo visto acompanhando algum campeonato ou jogo.


Com 17 anos, saí de casa sem medo de enfrentar a vida sozinho, pois já tinha aprendido com os dois (pai e mãe) a fazer de tudo (inclusive, bainha de calça com ponto pé-de-galinha. Duvidam? Perguntem a quem já me pediu para fazer tais "serviços". Não deixo um ponto aparecendo do outro lado do tecido. Se aparecer, arranco a linha... começo tudo de novo. rsrsrs!)  


E hoje vejo tantas famílias, em nome do tal amor incondicional, caindo na mesma armadilha machista de gerações anteriores, criando filhos extremamente dependentes e folgados... Mães que se desdobram para dar conta de tudo, maridos omissos (por conveniência, incompetência ou falta de pulso, sei lá)... 


Vamos ver no que vai dar tudo isso.  


Tomara que alguns caras bobalhões façam o "mea-culpa" que esse tiozinho do comercial de sabão em pó fez.  


Tomara! Ainda dá tempo!





sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Tempo de despedidas



Outro amigo que se vai, um livreiro com 60 anos de experiência na área editorial...

Hoje, logo cedo, recebi a notícia de falecimento de Jair Canizela (http://d-app.cbl.org.br/e/6644/1551/45260/03b61).

Quando vim para São Paulo,aos 17 anos, e indicado por outra amiga, Jussara Dias​, fui até a livraria da editora Vozes, na Haddock Lobo, meio quarteirão da Paulista, no prédio do Colégio São Luís. Era para ser divulgador, visitar colégios, redações de jornais e produção de programas de rádio e TV. Eu ainda não havia trabalhado com carteira assinada, não tinha experiência alguma em absolutamente nada. E o pior: aos 17 anos, graças ao famigerado serviço militar obrigatório, é muito difícil darem emprego aos rapazes. 

Sentei diante dele e fui muito franco, quando me foi perguntado o que eu sabia fazer:

"Não sei nada. Mas quero aprender tudo."

Ele sorriu meio espantado, e rebateu aquilo com uma pergunta:

"Quanto pretende ganhar?"

Eu: "Meio salário, tá ótimo..."

Sim, naquele tempo era comum pagarem meio salário para um iniciante. 

Ele, então, voltou a me encarar, agora mais sisudo, e disse:

"Ah, assim não vai dar... porque eu quero lhe pagar dois salários mínimos."

No auge da minha ingenuidade, gelei, achando que ele falava sério. Que nada, fui contratado no mesmo dia, "por dois salários". Aquilo foi um "feito", algo impensável. Puxa, dois salários, mais comissões! Era demais para mim!!!!

Meu primeiro emprego. Um caminho que nem eu mesmo sabia para onde iria me levar.

Na Vozes, conheci a Rose Marie Muraro (falecida em 2014), grande mulher! Nas redações, conheci editores importantes, que me fizeram chegar a alguns escritores consagrados... Entre eles, o Caio Fernando Abreu (falecido em 1996)... que me disse: "Você tem que escrever sobre os seres da noite de Sampa, mostrar essa gente sem as máscaras, a solidão delas."

Enfim, foi ali, assinando aquele primeiro contrato de trabalho, que tudo começaria... Mais adiante, o Jair Canizela seria o primeiro distribuidor (ele já era um dos donos da Distribuidora Loyola) a pegar consignação da minha editora. Todos, em maior ou menor intensidade, acreditavam nos meus "desatinos".

Obrigado, Jair, por tudo! Até mesmo pelas brigas que tivemos. Brigávamos muito, mas, no final, acabávamos nos entendendo... sempre.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Tudo por uma boa causa


Quanta alma boa e generosa na internet, não?

Diariamente, recebo um monte de e-mails com links e anexos com depósitos bancários, depósitos em juízo, doações de fortunas, heranças, compras aprovadas, estornos de valores, escrituras de imóveis de altíssimo padrão e até de jazigos em cemitérios de luxo... Se continuar assim, qualquer dia estarei no topo da lista dos suspeitos na Operação Lava Jato. 

Affff! 

Esse povo que manda vírus não tem nada melhor pra fazer, não?

Bem... Me disseram que são os tais sites pornôs que costumam fazer isso com quem vai lá, de vez em quando, dar uma espiada... O sujeito espia daqui e, ao mesmo tempo, é espiado de lá.

Mas juro que não faço isso! Juro! 

Rezo dia e noite!!!!! Sei a Bíblia de cor... e de trás pra frente!

Sou um ser elevado! Analisado! Evoluído! Portanto, já imune a essas coisas impuras da carne! Só não digo que sou santo, porque sou muito, muito humilde! Mas sou, sim! Santíssimo! Até milagre já fiz! Um monte!

Ora, onde já se viu? Agora vou ter que esconder câmeras para ver quem é esse degenerado que anda usando indevidamente o meu micro particular para ver safadeza alheia. 

Quanto atrevimento!

É o fim dos tempos, mesmo!

O APOCALIPSE!

Tá, tá bom... Acesso às vezes. Bem pouco, mas tenho que fazer isso. Rezo pelos pobres pecadores e pecadoras... para ver se se livram daquelas impurezas. Fico lá, de joelhos diante do monitor, clamando: 


"Sai, que esse corpo não te pertence! Entra, sai, entra, sai... Devagar, capetas! Assim eu não consigo rezar direito... e a minha labirintite grita!" 

Dá uma canseira danada, mas vale a pena! É uma singela contribuição para a humanidade... Um sacrifício por uma boa causa.   

Obs. 1: Repasse esta postagem, e receberá uma graça em um segundo. Mas também pode imprimir e trocar por um ingresso para ver "Os Dez Mandamentos" no cinema mais próximo (de graça). 


Obs. 2: Viram como já tô, por via das dúvidas, preparadinho para depor na Lava Jato? Afiadíssimo!



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Eu e o meu ninho


     
Sobre o aniversário de Sampa, tomo a liberdade de compartilhar com vocês esta história (verídica)...

Eu devia ter 18 ou 19 anos, por aí. Morava sozinho em uma quitinete na Duque de Caxias, entre o Largo do Arouche e a avenida São João. Naquela época, escrevendo para cinema, eu viajava bastante a trabalho. Depois de uma temporada mais longa, ao voltar para o meu apê, encontrei um ninho de pomba na sacada. Sim, sabia de todas as doenças que podem ser transmitidas etc. Mas como jogar aqueles ovos fora? Limpei tudo em volta, fazia isso sempre... e a pomba, ali, já acostumada comigo, chocando.

Nasceram os filhotes: três. E piavam dia e noite. Eles eram o meu despertador.

Mãe-pomba pra lá e pra cá. A fome daquele trio era insaciável. A disposição dela (cada vez mais magra), incrível.

Mais uma temporada fora, e voltei para casa. Os três já estavam grandes. E a estiva de abastecimento da mãe parecia ter piorado.

Certa madrugada, acordei com uma briga entre as aves... Abri a cortina e lá estava a mãe-pomba furiosa, distribuindo bicadas violentas nos filhotes. Uma sangueira na sacada... Peguei uma vassoura, e expulsei a malvada aos berros.

Dali em diante, um olho na máquina de escrever (ainda não havia computadores como hoje) e outro na sacada, passei a monitorar as visitas indesejadas da mãe desnaturada, que já não trazia tanta comida como antes... Com pena dos filhotes, passei a dar água e migalhas de pão a eles... Se não fizesse isso, iriam morrer à míngua. Pelo menos, era o que eu pensava.

Mas bastava eu me descuidar, que ela avançava neles. Para se protegerem dos ataques, os coitados se enfiavam nos cantos, se encolhiam, piavam... batiam e batiam suas asas.

E eu na vigília, vassoura em punho, me desdobrando para afugentar a pomba-megera.

Água limpa, migalhas de pão... eu e o meu ninho.

A pomba-mãe não desistia. Deu tanta bicada nos filhotes que eles, finalmente, tomaram coragem, escancararam bem as asas e saltaram lá do alto (cinco andares). Pronto: a missão dela estava cumprida... os filhotes ganharam o mundo. Inseguros e desajeitados no início, mas logo dominaram o voo. Sumiram. 

Limpei tudo ali, porque eles nunca mais retornaram.

Minto; a mãe voltava de vez em quando. Ficava comigo na sacada. Até que chegou a minha hora de partir...

Décadas depois, e ainda me lembro disso... com todos os detalhes. Mas agora vejo tudo aquilo como uma bela metáfora. São Paulo é mais ou menos assim com seus filhos (legítimos ou não): bate e logo assopra. É mãe zelosa, mas extremamente exigente. Quando dá porrada, é para que a gente aprenda a voar cada vez mais longe, confiante, destemido, livre. Não é terra para quem se acomoda no ninho. Não mesmo!

Feliz aniversário, Sampa!

Minha gratidão por tudo!!! 

Sempre!!!   


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sobreviventes





Ainda que algumas vezes eu não tivesse o rendimento (oficial) esperado nos boletins, de uma ou de outra maneira me destacava em algo. É um "dispositivo de compensação" que a gente vai aprendendo a devolver/retribuir/para não virar os holofotes "negativamente" para evidenciar aquilo que você sabe que não "fez direito" (na visão dos outros, claro). 

E são pesadas as cobranças (no início, externas... depois isso fica por dentro, como um sinal de alerta interior que até poderá ser controlado, mas jamais eliminado). Principalmente, aos que não correspondem às expectativas (sejam de gênero, sejam de comportamento, não importa). 

Costumo dizer que alguns põem filhos no mundo para ter uma forma de passar a limpo fracassos/frustrações, ter uma nova chance de competir e vencer a disputa (autoimposta?) não conquistada lá atrás. E isso é muito cruel! Um amor torto disfarçado de zelo, preocupação... o tal amor incondicional de pai e mãe. Um mito. Não é amor, é tirania.

Por outro lado, não correspondendo às tais expectativas (família, amigos, sociedade etc.), o sujeito pega aquela marca/estigma/tenha o nome que tiver, e retrabalha isso internamente (de modo consciente ou não)... Como a Rose Marie Muraro disse em uma entrevista nos anos 1980, "a vivência do estigma te faz viver muitos opostos, te faz viver muito desamparo e te faz viver muita coragem, porque... ou você é obrigado a ter uma coragem maior que a dos outros... ou então você não sobrevive". 

Com isso em mente (e/ou na alma), Edu, personagem de um novo trabalho, joga com o próprio destino ao longo da trama. Se vai ou não se dar bem, é o de menos... mas seguirá em frente.

De família "boa", ele não é... Mas que tem excelentes padrinhos, disso não há dúvida!

"Bora" 2016!!!!!



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Decadência disfarçada





Caraca! Será que vivo em outro planeta ou me perdi em algum portal do tempo?

Não tenho o tal do WhatsApp, também jamais cheguei a me empolgar com "Guerra nas estrelas"... e ontem, depois de muitos anos sem ir ao Centro de Sampa, só encontrei comentários ferozes sobre o primeiro (fora do ar por ordem judicial) e euforia coletiva para a estreia do segundo (cartazes, lojas abarrotadas de produtos da série etc.). Encontrei até camelô fantasiado com capas e capacetes dos personagens do filme...

Puxa, a sensação é de que, por ter perdido vários capítulos importantes de uma novela, fiquei boiando no final da história!

E logo eu que vi na telona o primeiro longa-metragem de "Guerra nas estrelas". Sim, era interessante, porque apresentava efeitos especiais até então nunca vistos... No segundo filme, já estando mais velho, achei (peço perdão aos fãs de carteirinha!) aquilo meio fantasioso demais, a princesa meio cafona e sem sal. Os demais filmes da série, não assisti (na tevê, um pedaço aqui, outro ali, mas nunca de letreiro a letreiro; não aguentei). Provavelmente, por já ter sido fisgado por "O caçador de androides" ("Blade Runner", com uma pegada mais “noir” e existencialista), outros filmes de ficção científica se tornaram menos interessantes. O romance era bom. O filme, idem. E a trilha do grego Vangelis, impecável. Esse filme sobre um futuro caótico, sim, me marcou. Até hoje a cena das “lágrimas na chuva” é impactante... Quem já foi escravo do medo de estar vivo, também se identificará com esta cena.

Enfim, como eu disse, depois de muito tempo, reencontrei ontem o Centro de Sampa de um jeito diferente, não é mais o mesmo que estava na minha memória: com boas livrarias em muitas esquinas, Mappin, Mesbla, grandes cinemas e lojas elegantes, que ofereciam nas vitrines uma infinita variedade de produtos de qualidade (eram tempos “pré-China”).

Não. Ontem de manhã, infelizmente, achei tudo muito massificado e enfadonho, apesar da poluição sonora (até isso era cansativo e muito chato).

Depois de resolver algumas questões burocráticas na Prefeitura, sentei num café, e fiquei ali, olhando, olhando, olhando. Um estranho no ninho, era mais ou menos assim que eu me sentia. Daí, lembrei de um comentário antigo da Bruna Lombardi, no qual ela admitia que sempre gostou dessa "decadência assumida do centro de Sampa”. E havia mesmo, nos anos 1980 (e até mais ou menos a metade da década seguinte), um lado "underground" nas imediações da Praça da República, com ares de contravenção, vanguarda... Gente de várias tribos querendo sair daquele gesso imposto pela ditadura militar: punks, darks, góticos, artistas, michês, putas, os coloridos da onda new age, new gays e afins. Tudo ali fervilhava.

Eu amava isso! Havia um monte de personagens em cada esquina...

Quando morei no Largo do Arouche, eu passeava à noite pelas ruas, sozinho. Também ficava na sacada para ver o dia raiar (o povo da noite indo embora; o do dia, chegando). Naquele tempo, eu escrevia filmes “trash” para diretores da Boca do Lixo (e também alguns pornôs bem apimentados, com um pseudônimo que não revelarei nem sob tortura; filmes que jamais tive coragem de assistir, mas que me renderam uma bela grana... eu tinha apenas 18, 19... 20 anos. Moleque demais, e ainda cheio de falsos pudores). Dessas minhas andanças, surgiram personagens da trilogia “Subterrâneos do desejo”, com “Caçadores noturnos” (Desatino, 2001), “O coveiro” (Desatino, 2003) e “O escorpião” (ainda em trabalho de parto – difícil! difícil! difícil! ­–... um dia nascerá).

Dessa passagem (da noite para o dia), aqui vai um trecho:

“São Paulo fica muito esquisita nesses momentos, assim, comprimida entre o finalzinho da madrugada e o comecinho da manhã. É como se ainda não tivesse rosto, é só um corpo decapitado, inerte, incógnito. Não é ainda aquela máquina fodida de fazer grana. O desatinado formigueiro humano ainda não veio para esconder as calçadas, espantar os pombos, e as praças ainda estão banhadas em esperma fresco. A São Paulo do dia se espreguiça, esquenta suas turbinas; a São Paulo da noite agoniza, se prepara para o esquecimento.” (“Caçadores noturnos”, conto “A vigília”)

Não, assim como não é mais o mesmo Centro da Bruna, também deixou de ser o meu. A decadência continua lá, faz parte da boemia de Sampa. Porém agora, dissimulada. Pelo menos para mim, já não tem o mesmo charme de antes. Mas talvez ainda possa voltar a ser o que era. Enquanto burilo o texto de “O escorpião”, preciso acreditar que sim, porque a trama se desenvolve no quarto de um hotel de viração na Boca do Lixo, que já não é mais Boca do Lixo, mas Cracolândia... Ah, é verdade! Também já começaram a derrubar as paredes da Cracolândia...

Pois é... Como Caetano cantou na música “Fora de ordem” (versos que também podem definir Sampa – cidade sem igual nesse sentido... e, por isso mesmo, assustadora e instigante): “Aqui tudo parece / Que era ainda construção / E já é ruína”     


Caetano sabe das coisas... 


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Eu, por aí, curtindo a minha solidão...

Quando digo: "quero ficar sozinho"... não estou triste... apenas desejando: "ficar sozinho". É simples. Ao menos para mim, não há nada de estranho em querer ficar sozinho. Mas existe uma imposição social, uma desconfiança quando você afirma que, de vez em quando, sente necessidade de estar sozinho. Quem me conhece desde pequeno sabe que sou um sujeito assim, meio antissocial, aquele que não aparece sempre nas fotos dos aniversários, nem nas ceias de Natal, nas comemorações de Ano Novo... Não é que não goste de estar com os meus amados, mas acho péssimo ser invasivo, impor afetos, cobrar atenção, declarações, visitas etc., etc., etc. Para não cometer tais indelicadezas, fico na minha.

E mais... Quando entro em "trabalho de parto" para uma nova obra, fico arredio, introspectivo, atento somente ao rebento. Há gozos, mas também dores no processo, não tem como compartilhar isso. Escrever é parir sozinho. Às vezes, à fórceps. Principalmente, quando aquele novo filho passou da hora de nascer. Acontece, fazer o quê? 

Enfim... Sei que é difícil conviver com uma pessoa que admite que se sente bem com ela mesma. Isso não deixa de ser uma contravenção num mundo que exige coletividades, um deboche aos que não conseguem ficar sozinhos, uma afronta aos ilusoriamente agrupados... Sim, porque, nas minhas andanças por aí, vejo tanta solidão (a verdadeira e devastadora) nas turmas de amigos, nos casais, nas famílias, nas baladas... Ora, e vem alguém e me critica: "Como você pode gostar de ficar sozinho? Isso é doença, só pode ser? Precisa de tratamento..."

Bem... Ontem, lendo mais um livro do Reinaldo Moraes, a nova edição do romance "Tanto faz", encontrei este parágrafo que resume um pouco o que penso sobre essa "estranheza" que a minha solidão causa nas pessoas:

"A França, quietinha lá fora. Francês segura melhor a barra da solidão. O solitário no Brasil é tratado socialmente como tuberculoso e se sente pessoalmente como um leproso. Brasileiro só acata a solidão na privada e no caixão. E, às vezes, nem no caixão: quantos não caem na vala comum?"

Mais não digo...