Certa tarde, ao
me sentar no fundo de uma lotação, encontrei um celular no banco. Novo, bem
mais moderno que o meu. Olhei em volta, perguntei se alguém tinha visto quem
havia esquecido o aparelho. Nenhuma resposta, sequer olharam para mim – é triste, mas, em São Paulo, isso é cada vez mais comum, digo, essa indiferença. Solidariedade,
então, nem se fala.
Fui até a cobradora – que, aliás, não parava de falar ao celular – e disse:
— Esqueceram, moça.
Ela, sem interromper o papo, olhou de soslaio na minha direção. Insisti:
— Desculpe, mas posso deixar com você?
Um pouco mais "solícita", ela deu de ombros e agora, sim, virou a metade de cima do corpo e estendeu a mão, unhas longas, impecavelmente pintadas. Entreguei o aparelho para a fulana, que seguiu falando animadamente sobre o casamento de não sei quem que tinha ido pelos ares depois de uma briga de socos e pontapés que acabou na delegacia e blablablá!
Meu ponto era o próximo. Dei o sinal. A lotação parou. Portas abertas, fui me preparando para descer. Último degrau, e escuto a tal cobradora comentar esfuziante:
— Escuta essa, amiga: algum otário esqueceu um celular novinho! É, novinho! Vou dar pra minha mãe; não tinha presente mesmo pra dar de aniversário pra ela, tô dura...
Pois é, e tantos comentários ácidos nas redes sociais sobre a roubalheira dos políticos etc. Só políticos roubam? Só no meio político é que existe corrupção e falta de ética? Ética, esta palavra ainda consta nos dicionários?
Voltando para casa, lembrei do que minha mãe vivia recomendando quando eu ia de uniforme azul e branco para a Escola Municipal Marechal Cândido Rondon, bem no início da minha alfabetização:
— Olha lá, não responde feio para a professora, hein? Obedece direitinho. Se não te oferecerem merenda, não peças. Não quero que pensem que teus pais não sabem te dar educação. Escola é para ganhar conhecimento, educação se leva de casa...
Sábias palavras, mas, infelizmente, acho que já sem muito contexto em tempos de pós-modernidade – ou seria mais apropriado dizer: de retorno à barbárie?
Triste realidade de valores invertidos ou pervertidos. E assim descamba a humanidade.
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