Valeu a pena esperar! Em breve, mais um trabalho...
Por isso, sinto uma enorme tristeza (para não dizer revolta) ao ler notícia de bicho sendo maltratado, de criança sendo explorada/violada, enfim, de todas essas atrocidades que ainda fazemos contra quem não pode se defender. Ora, se existiu mesmo o tal paraíso, se o primeiro casal foi de fato expulso dele, o mais provável é que ele (o tal casal) tenha voltado para se vingar. E “Deus”, se é que houve/há um deus, foi quem se mandou daqui. Abandonou toda essa merda ao perceber que era um projeto fadado ao fracasso, um grande equívoco, um rascunho infeliz, um blefe. Sim, Deus se escafedeu daqui há muito, muito, muito tempo!
Nesse texto, Sergio Keuchgerian é apenas um olho atento no buraco da fechadura, um observador a serviço das personagens que o escolheram. Diluídos nas lembranças de Mário (o protagonista-narrador), todos nós estamos lá, do outro lado dessa porta imaginária que separa ficção e realidade. Conhecemos muito bem seus desencontros, suas decepções e aquela sensação de desamparo que surge nos dias cinzentos e frios. Como ele mesmo observa, “solidão se dá quando não encontramos mais ninguém que queira nos conhecer ou compartilhar de nossas lembranças”. Assim, ao oferecer pontos de identificação, Mário estende suas pontes em direção ao leitor, compartilhando com ele anseios, frustrações, culpas, incertezas, traições, angústias, medos...
As fogueiras da ignorância foram acesas novamente – se é que algum dia elas estiveram totalmente apagadas. A multidão (pasteurizada, crédula e anônima) aguarda ansiosa pela execução dos novos hereges, bruxas, pecadores, rebeldes, traidores, enfim, de todos que foram condenados por não acreditar no mesmo deus, não dançar com a mesma música, não chorar com o mesmo drama, não usar a mesma grife, não gozar da mesma forma... Ou seja: numa sociedade de amebas cibernéticas muito bem treinadas para vigiar on-line, o inimigo comum é sempre o outro! Tempos de Outrofobia, talvez este seja o termo mais apropriado para os dias atuais.