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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Meu velho companheiro de guerra(s)

Hoje, meu pai, um cara fora do comum que me ensinou (entre outras coisas bacanas) a não ser hipócrita, fez 80 anos. 

Bem vividos!!!!


Projecionista em Uruguaiana, foi ele que me iniciou na arte de contar histórias. 


Recém-saído das fraldas, ia com meu velho "trabalhar" no cinema Carlos Gomes (e, se não me engano, também no Pampa)... Ficávamos juntos na cabine de projeção. Lá na frente, o público delirava com as histórias. Ali dentro, enquanto o pai cuidava dos rolos e do projetor, eu catava os fotogramas para montar o meu filminho em casa. 


Projetava nas paredes, com vela dentro de uma caixa de papelão. De modo precário, eu tentava contar novas histórias (e, óbvio, fui "autor" de alguns princípios de incêndio, que me renderam várias chineladas e castigos, mais da mãe do que do pai). Naquela época, injustamente, minha fama de incendiário foi maior que a do "cineasta" precoce. 


Mesmo assim, ele seguiu me mostrando essa maravilhosa (e muitas vezes ingrata) teimosia de imaginar histórias. No silêncio (até na raiva), nos entendíamos. Jamais ele quis mudar o meu jeito (esquisito, muito esquisito!) de ser ou questionou essa minha mania/necessidade de (muitas vezes) ficar sozinho. 

Distante fisicamente, porém sempre mais perto que muitos, daqui te mando minha gratidão e respeito. Feliz aniversário, pai!!!! Te amo, tchê!!!


     

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Palanques e obras públicas




A linha amarela do metrô, que em 2010 tinha previsão de entrega (completa) para o final de 2014 (no período de campanha eleitoral e após a Copa do Mundo), agora, depois de uma denúncia do jornal "O Estado de São Paulo" (que mostrava obras abandonadas, funcionários de braços cruzados, materiais se deteriorando etc.), o exmo. governador Geraldo Alckmin (do PSDB, mas tanto faz, podia ser do PT, PMDB ou "PQP") vem a público revelar/admitir que o cronograma precisará ser alterado: Higienópolis-Mackenzie e Oscar Freire ficarão para 2016, São Paulo-Morumbi, para 2017 e Vila Sônia, para 2018. 

Opa! Por "coincidência", teremos novas eleições nesse período (2016 e 2018).


Bem, a boa notícia é saber que, pelo menos, o nosso governador lê jornais. Precisou de uma boa "sacudida" da imprensa para "abrir os olhos" e ver que tudo estava parado. Ora, qualquer usuário de transporte público (como eu), no mínimo, suspeitava que as obras só podiam estar às moscas. Quer dizer: não às moscas, apenas em compasso de espera. Quando os palanques forem reerguidos, elas certamente começarão a ser inauguradas. Aos poucos, mas serão inauguradas, sim. 


País de quinta! Lamentável!



domingo, 2 de novembro de 2014

Sistema de castas não assumido - 2



FaSCisbook bombando!!!! 

Bem, sempre há o lado bom de tudo: a partir de agora, conheceremos melhor as pessoas, isto é, sem as máscaras. 

Há muito sorrisinho nos lábios, mas, em uma das mãos, o afago; no outro, a adaga. 

Eta paizinho reacionário, recalcado e medieval! Muitos que vão à Europa, EUA etc., e voltam elogiando isso e aquilo do tal "mundo civilizado", são os mesmos que, nas redes sociais, defendem o retorno a um passado nebuloso, perverso e de privilégios apenas para uma pequena parcela da população. 

Bem, diante de tantos absurdos que tenho lido ultimamente, compartilho aqui o que ouvi ontem de alguém que respeito muito (por ser uma pessoa autêntica e justa): 

"Vocês vieram aqui para pedir coisas, até mesmo falar com Deus, não é mesmo? Me digam, então, o que têm feito pelos moradores de rua? Já deram, ao menos, um guaraná, um sanduíche, uma mísera bala, um sorriso...? Nada! Ninguém levanta a mão, não? Ah, o que querem se atrever a pedir se não dão nada a ninguém que, realmente, precisa? Deus tem mais o que fazer, ora! Não tem tempo a perder com gente hipócrita e interesseira! Podem levantar e ir embora daqui."


domingo, 26 de outubro de 2014

Sistema de castas não assumido



Um importante passo (para o nosso autoconhecimento) seria assumir de uma vez por todas que o Brasil é, sim, machista, conservador, misógino e possui uma sociedade que insiste (por não saber como viver fora da sua zona de conforto) na separação de "castas" (não apenas, mas também por questões históricas, hereditárias, políticas e religiosas). Mulheres bem-sucedidas, independentes etc. e outras minorias ainda representam, para muitos, uma  ameaça "à ordem, à família e aos bons costumes". Deverão permanecer, portanto, na "casta" dos párias (intocáveis ou dalits, como na Índia). Qualquer provável/possível/inesperada ascensão de um "intocável" causa repulsa/inveja/indignação, e os das castas superiores (de vários tipos) se unem para, no mínimo, tentar neutralizar os "efeitos nocivos desse mau exemplo para outros dalits": não, numa sociedade de "castas", as separações precisam ser mantidas a qualquer custo! Um "intocável" deve permanecer à distância do "mundo dos sãos". 

Creio que uma reflexão sobre isso é bem-vinda no atual contexto, no qual "fúrias acumuladas" arrancam velhas cascas e deixam nossas feridas sociais novamente expostas. Sangrando.



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Lançamento de "Relicário" (e-book)

Ana Fadigas, Sérgio Miguez, Ferdinando Martins e Rodrigo de Araújo, amigos e editores, este não deixa de ser um registro dos anos que trabalhamos juntos na "G Magazine". Fizemos a nossa parte. Recém-lançado, o e-book de “Relicário” (Edições GLS, 2014) já está disponível em importantes livrarias (ver links abaixo). Minha editora na Summus, Soraia Bini Cury, não vai gostar que eu diga que a versão em papel é mais charmosa (ainda), por contar com a belíssima arte de Gabrielly Silva, com ilustrações nada óbvias... Mas ela sabe que estou feliz e grato com essa nova possibilidade de divulgar a obra. Em qualquer parte do planeta, estará disponível. O preço? Bem mais interessante. Livros digitais têm essa vantagem, e claro que ainda vão evoluir muito em termos estéticos. Obrigado a todos! Valeu!

Amazon:
http://www.amazon.com.br/Relicário-Felipe-Greco-ebook/dp/B00LLJAT5U/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1406736718&sr=8-1&keywords=relicário

Google Play:
https://play.google.com/store/books/details/Felipe_Greco_RELICÁRIO?id=dS_yAwAAQBAJ&hl=pt_BR

Cultura:
http://pesquisa.livrariacultura.com.br/busca.php?q=Felipe+Greco&common_filter%5BTipo+de+produto%5D=Ebooks

sábado, 21 de junho de 2014

Valeu, Rose!

Em 1985, com 17 para 18 anos, eu havia chegado do Sul... e logo consegui emprego na Editora Vozes (de São Paulo), como divulgador. A editora (Rose Marie Muraro) era uma mulher visionária, corajosa e com uma inteligência ímpar. Naquele tempo, fui iniciado (por ela e pelos meus companheiros de equipe) no mundo dos "grandes" (Freud, Jung, Guattari, Genet, Foulcault, Rimbaud etc.). Eu era um menino no meio de gigantes. E, por isso mesmo, acho que fiz a Rose gargalhar muitas vezes com os meus ímpetos e destemperos de adolescente cheio de sonhos mirabolantes. 

De braços dados, cruzávamos a Paulista e íamos até o Conjunto Nacional tomar café e comprar passagens aéreas em uma agência da saudosa Varig. Ela ia e voltava do Rio quase toda semana. Conversávamos muito sobre livros, autores... 

Um dia, ela, mais desatinada que eu, esbravejou: 

"Porra, cara, se acha que pode escrever, por que não vai lá e manda bala? Vontade a gente tem pra realizar coisas. Desejo trancado não serve pra nada, vira frustração, rancor, doença." 

Morrendo de vergonha, mostrei a ela alguns poemas. 

"Vamos publicar esta merda!", ela disse. 

Publicamos. Rose escreveu um texto para a quarta capa. No final dele, exclamava: "Valeu, Felipe". 

Sim, era uma porcaria de livro, mas um começo. Sem um pontapé inicial... nada vai adiante. E ela (guerreira não tem medo de arriscar) deu esse chute numa vontade que já havia nascido comigo. 

Hoje, essa mulher lutadora, agnóstica (arrisco, mas dizia ser ateia) e intelectual admirável (que, de tão teimosa, apesar de ter nascido praticamente cega, resolveu ser escritora e editora de ponta)... partiu. Mas não foi o câncer que a levou, como divulgaram por aí. Dona do corpo e do próprio destino, havia cumprido sua missão. Estava pronta para outros desafios. Deixou, então, a morte trabalhar.

Não estou triste. Não fico triste com a morte de quem veio e fez história. Abriu caminhos. Andou sem medo. Inteiro.

Valeu, Rose!



quinta-feira, 12 de junho de 2014

Divão no fascisbook - (quase 3, sessão de emergência)






Ontem, de repente, durante um dos meus sagrados momentos de tédio absoluto, ouvi essa:

— Sabia que amanhã é dia dos namorados?
— Hein?
— Ouviu o que eu disse?
— Antes ou agora?
— Tanto faz.
— Bom, estava distraído, acho...
— Eu disse: "amanhã é dia dos namorados, sabia?"
— É? E daí?
— O que você gostaria de ganhar de presente?
— De quem?
— De mim, ora.
— Distância.

Tem gente que me faz cada pergunta, doutor. Por deboche, só pode ser.


terça-feira, 10 de junho de 2014

Divã no fascisbook 2


Não, doutor, não sou inseguro, mas exigente. Isso, às vezes (ou sempre), é um fardo pesado (para os outros e também para mim). Veja só: quando eu tinha 10 ou 11 anos, minha mãe desistiu de me dar presentes de Natal, aniversário, o que fosse. Não que ela tivesse um gosto, digamos, "muito particular" para escolher os presentes para o caçula da casa, mas, infelizmente, não dava uma dentro, nunca. Daí, achou melhor economizar, e passei a receber dinheiro em vez de presentes. Na verdade, acho que ela queria mesmo era desistir de ser minha mãe, porém decidiu me dar dinheiro. Afinal, já era um pouquinho tarde para me abortar, né? 
Mais adiante, apenas para dar um exemplo desta minha obstinação pelo melhor resultado (e a querida amiga Adriana Chagas testemunhou isso), quando ainda era preciso tirar e levar fotos 3x4 para a carteira de identidade, cheguei a ir a 10 fotógrafos diferentes (em São Paulo e Santos) para poder escolher a foto menos “assustadora”. 
Imagine, então, o "parto a fórceps" que costuma acontecer quando estou escrevendo algo meu... Pois é, a produção do roteiro e dos quadrinhos de Dom Casmurro levou seis anos... E o romance que escrevo agora já recebeu tantas "marteladas" (quatro anos de carpintaria de texto), que já nem sei mais se o original sobreviverá por muito tempo. Bom, se não sobreviver, é porque já nasceu meio morto, certo? E "la nave va"... 
Não, doutor, não me olhe assim. Não, não é que eu não goste do jeito que o senhor me olha... Mas a sua cara, talvez o senhor pudesse dar um jeito de melhorar o corte de cabelo, pôr um aparelho nos dentes, mudar de óculos, de corpo, de encarnação... Enfim, quanto lhe devo? Vou procurar outro psiquiatra; o senhor, lamentavelmente, não serve para escutar as minhas memórias. Puxa vida, tá ficando difícil de ser louco, viu?


terça-feira, 20 de maio de 2014

Divã no fascisbook


Caro doutor, meu problema de "desencanto progressivo" talvez venha dessa minha incapacidade de ser fã de artistas, não gostar de colecionar coisas ou por ter os pés excessivamente no chão (embora, de vez em quando, eu seja ficcionista para ganhar alguns trocos). Começou lá atrás, bem cedo. Um dia, lembro que meus pais, no início de um dos muitos arranca-rabos que tínhamos durante as refeições, reclamaram:
— Não sabemos mais o que fazer contigo, guri, vive contestando tudo.
— Nem sempre, pai.
— Mesmo de bico fechado, já é um jeito de nos afrontar.
— Aí, já é implicância comigo, né?
— Implicância? Até da catequese já te mandaram embora. "Não acredita em Deus!", disse a pobre freira, traumatizada com a tua boca suja.
Tentei me defender: 
— Mas não é verdade, mãe.
— Então é mentira dela? — minha mãe voltava a ter uma ponta de esperança na “salvação da minha alma”.
— Também não — admiti.  
O pai (cerveja já pela metade no copo, cada um com seus “escudos” para me enfrentar) vociferou: 
— Acredita ou não acredita?
— Na freira?
— Não te faz de bobo, guri! Em Deus, acredita ou não?
— Tem dias que sim, pai, mas não é sempre.
A mãe levou as mãos à cabeça (para ela, acho que gritar pela santa era como beber cerveja): 
— AVE MARIA! — clamou.
— Nem em nós ele acredita! — acrescentou meu velho.
— Me esforço, pai, mas não é fácil.
— Devias ver tua mãe e eu como heróis!
— Hein?
— Não somos heróis para vc? — insistiu o pai. 
— Pode falar —, disse a mãe. — Já estamos acostumados com as tuas esquisitices.
Silêncio. Pai e mãe trocaram olhares apreensivos até eu voltar a abrir a boca:
— Vocês têm capas e voam, por acaso?
— Não tenho capa, nem voo — explodiu a mãe, tinha e ainda tem o pavio mais curto que o meu —, mas meto a mão na tua cara se continuar falando desse jeito.
— Bom, então a pergunta já tá respondida, certo?
Assunto encerrado. Eu devia ter 7 ou 8 anos, não mais que isso. Dos heróis, tudo bem, eu só queria provocar meus velhos, como sempre fazia quando tentavam me pôr na berlinda. Porém, da freira... Veja bem, ela me chamou de ateu e me convidou a não ir mais às aulas de catequese... mas fez isso para não ter que contar aos meus pais que eu havia feito uma aposta com meus colegas, afirmando que freiras não se raspavam. E que elas, de tão compridos os pelos, além de não poder usar calcinhas, tinham que trançar as longas madeixas pubianas para amarrá-las em volta das coxas. Pareciam trepadeiras felpudas no meio das pernas das religiosas, que, às vezes, caminhavam soltando gritinhos... Daí, uma tarde, ela, a que nos dava aula, flagrou um de nós com o espelho de bolso preso na ponta de uma antena de carro. Pisou nele: acabou com o nosso “periscópio", para manter o mistério sob o hábito.  
Será que o meu caso é grave, doutor?



(Para Jean Wyllys, Klecius Borges e Sérgio Miguez.)



quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dia do autor guerreiro



23 de abril: dia de São Jorge!

23 de abril de 1616: Miguel de Cervantes morreu nessa data (Shakespeare, também). E, em 1995, a Unesco instituiu o “Dia Mundial do Livro e Direito do Autor".

Nada mais apropriado: o santo abre caminho para que Dom Quixote possa enfrentar seus dragões diários (imaginários ou não).

Hoje, cada vez mais quixotescos, nós, os contadores de histórias, seguimos em frente, desbravando caminhos obscuros. Mas, infelizmente, sem poder contar com a retaguarda de um amigo leal, como Sancho Pança. Sozinhos. Sempre.

Salve, São Jorge! Salve, Cervantes! Salvem-nos!