Outro amigo que se vai, um livreiro com 60 anos de experiência na área editorial... Hoje, logo cedo, recebi a notícia de falecimento de Jair Canizela (http://d-app.cbl.org.br/e/6644/1551/45260/03b61). Quando vim para São Paulo,aos 17 anos, e indicado por outra amiga, Jussara Dias, fui até a livraria da editora Vozes, na Haddock Lobo, meio quarteirão da Paulista, no prédio do Colégio São Luís. Era para ser divulgador, visitar colégios, redações de jornais e produção de programas de rádio e TV. Eu ainda não havia trabalhado com carteira assinada, não tinha experiência alguma em absolutamente nada. E o pior: aos 17 anos, graças ao famigerado serviço militar obrigatório, é muito difícil darem emprego aos rapazes. Sentei diante dele e fui muito franco, quando me foi perguntado o que eu sabia fazer: "Não sei nada. Mas quero aprender tudo." Ele sorriu meio espantado, e rebateu aquilo com uma pergunta: "Quanto pretende ganhar?" Eu: "Meio salário, tá ótimo..." Sim, naquele tempo era comum pagarem meio salário para um iniciante. Ele, então, voltou a me encarar, agora mais sisudo, e disse: "Ah, assim não vai dar... porque eu quero lhe pagar dois salários mínimos." No auge da minha ingenuidade, gelei, achando que ele falava sério. Que nada, fui contratado no mesmo dia, "por dois salários". Aquilo foi um "feito", algo impensável. Puxa, dois salários, mais comissões! Era demais para mim!!!! Meu primeiro emprego. Um caminho que nem eu mesmo sabia para onde iria me levar. Na Vozes, conheci a Rose Marie Muraro (falecida em 2014), grande mulher! Nas redações, conheci editores importantes, que me fizeram chegar a alguns escritores consagrados... Entre eles, o Caio Fernando Abreu (falecido em 1996)... que me disse: "Você tem que escrever sobre os seres da noite de Sampa, mostrar essa gente sem as máscaras, a solidão delas." Enfim, foi ali, assinando aquele primeiro contrato de trabalho, que tudo começaria... Mais adiante, o Jair Canizela seria o primeiro distribuidor (ele já era um dos donos da Distribuidora Loyola) a pegar consignação da minha editora. Todos, em maior ou menor intensidade, acreditavam nos meus "desatinos". Obrigado, Jair, por tudo! Até mesmo pelas brigas que tivemos. Brigávamos muito, mas, no final, acabávamos nos entendendo... sempre.
Diariamente, recebo um monte de e-mails com links e anexos com depósitos bancários, depósitos em juízo, doações de fortunas, heranças, compras aprovadas, estornos de valores, escrituras de imóveis de altíssimo padrão e até de jazigos em cemitérios de luxo... Se continuar assim, qualquer dia estarei no topo da lista dos suspeitos na Operação Lava Jato. Affff! Esse povo que manda vírus não tem nada melhor pra fazer, não? Bem... Me disseram que são os tais sites pornôs que costumam fazer isso com quem vai lá, de vez em quando, dar uma espiada... O sujeito espia daqui e, ao mesmo tempo, é espiado de lá. Mas juro que não faço isso! Juro! Rezo dia e noite!!!!! Sei a Bíblia de cor... e de trás pra frente! Sou um ser elevado! Analisado! Evoluído! Portanto, já imune a essas coisas impuras da carne! Só não digo que sou santo, porque sou muito, muito humilde! Mas sou, sim! Santíssimo! Até milagre já fiz! Um monte! Ora, onde já se viu? Agora vou ter que esconder câmeras para ver quem é esse degenerado que anda usando indevidamente o meu micro particular para ver safadeza alheia. Quanto atrevimento! É o fim dos tempos, mesmo! O APOCALIPSE! Tá, tá bom... Acesso às vezes. Bem pouco, mas tenho que fazer isso. Rezo pelos pobres pecadores e pecadoras... para ver se se livram daquelas impurezas. Fico lá, de joelhos diante do monitor, clamando: "Sai, que esse corpo não te pertence! Entra, sai, entra, sai... Devagar, capetas! Assim eu não consigo rezar direito... e a minha labirintite grita!" Dá uma canseira danada, mas vale a pena! É uma singela contribuição para a humanidade... Um sacrifício por uma boa causa. Obs. 1: Repasse esta postagem, e receberá uma graça em um segundo. Mas também pode imprimir e trocar por um ingresso para ver "Os Dez Mandamentos" no cinema mais próximo (de graça). Obs. 2: Viram como já tô, por via das dúvidas, preparadinho para depor na Lava Jato? Afiadíssimo!
Sobre o aniversário de Sampa, tomo a liberdade de compartilhar com vocês esta história (verídica)...
Eu devia ter 18 ou 19 anos, por aí. Morava sozinho em uma quitinete na
Duque de Caxias, entre o Largo do Arouche e a avenida São João. Naquela época,
escrevendo para cinema, eu viajava
bastante a trabalho. Depois de uma temporada mais longa, ao voltar para o meu
apê, encontrei um ninho de pomba na sacada. Sim, sabia de todas as doenças que
podem ser transmitidas etc. Mas como jogar aqueles ovos fora? Limpei tudo em
volta, fazia isso sempre... e a pomba, ali, já acostumada comigo, chocando.
Nasceram os filhotes: três. E piavam dia e noite. Eles eram o
meu despertador.
Mãe-pomba pra lá e pra cá. A fome daquele trio era
insaciável. A disposição dela (cada vez mais magra), incrível.
Mais uma temporada fora, e voltei para casa. Os três já
estavam grandes. E a estiva de abastecimento da mãe parecia ter piorado.
Certa madrugada, acordei com uma briga entre as aves... Abri a
cortina e lá estava a mãe-pomba furiosa, distribuindo bicadas violentas nos filhotes.
Uma sangueira na sacada... Peguei uma vassoura, e expulsei a malvada aos berros.
Dali em diante, um olho na máquina de escrever (ainda não
havia computadores como hoje) e outro na sacada, passei a monitorar as visitas indesejadas
da mãe desnaturada, que já não trazia tanta comida como antes... Com pena dos filhotes, passei a dar água e migalhas
de pão a eles... Se não fizesse isso, iriam morrer à míngua. Pelo menos, era o que eu pensava.
Mas bastava eu me descuidar, que ela avançava neles. Para se protegerem dos ataques, os coitados se enfiavam nos cantos, se encolhiam, piavam... batiam e batiam suas asas.
E eu na vigília, vassoura em punho, me desdobrando para afugentar a pomba-megera.
Água limpa, migalhas de pão... eu e o meu ninho.
A pomba-mãe não desistia. Deu tanta bicada nos filhotes que
eles, finalmente, tomaram coragem, escancararam bem as asas e saltaram lá do
alto (cinco andares). Pronto: a missão dela estava cumprida... os filhotes
ganharam o mundo. Inseguros e desajeitados no início, mas logo dominaram o voo. Sumiram.
Limpei tudo ali, porque eles nunca mais retornaram.
Minto; a mãe voltava de vez em quando. Ficava comigo na
sacada. Até que chegou a minha hora de partir...
Décadas depois, e ainda me lembro disso... com todos os detalhes. Mas agora vejo tudo aquilo como
uma bela metáfora. São Paulo é mais ou menos assim com seus filhos (legítimos ou
não): bate e logo assopra. É mãe zelosa, mas extremamente exigente. Quando dá
porrada, é para que a gente aprenda a voar cada vez mais longe, confiante, destemido, livre. Não é terra para quem se acomoda no ninho. Não mesmo!
Ainda que algumas vezes eu não tivesse o rendimento (oficial) esperado nos boletins, de uma ou de outra maneira me destacava em algo. É um "dispositivo de compensação" que a gente vai aprendendo a devolver/retribuir/para não virar os holofotes "negativamente" para evidenciar aquilo que você sabe que não "fez direito" (na visão dos outros, claro). E são pesadas as cobranças (no início, externas... depois isso fica por dentro, como um sinal de alerta interior que até poderá ser controlado, mas jamais eliminado). Principalmente, aos que não correspondem às expectativas (sejam de gênero, sejam de comportamento, não importa). Costumo dizer que alguns põem filhos no mundo para ter uma forma de passar a limpo fracassos/frustrações, ter uma nova chance de competir e vencer a disputa (autoimposta?) não conquistada lá atrás. E isso é muito cruel! Um amor torto disfarçado de zelo, preocupação... o tal amor incondicional de pai e mãe. Um mito. Não é amor, é tirania. Por outro lado, não correspondendo às tais expectativas (família, amigos, sociedade etc.), o sujeito pega aquela marca/estigma/tenha o nome que tiver, e retrabalha isso internamente (de modo consciente ou não)... Como a Rose Marie Muraro disse em uma entrevista nos anos 1980, "a vivência do estigma te faz viver muitos opostos, te faz viver muito desamparo e te faz viver muita coragem, porque... ou você é obrigado a ter uma coragem maior que a dos outros... ou então você não sobrevive". Com isso em mente (e/ou na alma), Edu, personagem de um novo trabalho, joga com o próprio destino ao longo da trama. Se vai ou não se dar bem, é o de menos... mas seguirá em frente. De família "boa", ele não é... Mas que tem excelentes padrinhos, disso não há dúvida! "Bora" 2016!!!!!
Caraca! Será que vivo em outro planeta ou me perdi em algum
portal do tempo?
Não tenho o tal do WhatsApp, também jamais cheguei a me empolgar
com "Guerra nas estrelas"... e ontem, depois de muitos anos sem ir ao
Centro de Sampa, só encontrei comentários ferozes sobre o primeiro (fora do ar
por ordem judicial) e euforia coletiva para a estreia do segundo (cartazes, lojas
abarrotadas de produtos da série etc.). Encontrei até camelô fantasiado com capas
e capacetes dos personagens do filme...
Puxa, a sensação é de que, por ter perdido vários capítulos
importantes de uma novela, fiquei boiando no final da história!
E logo eu que vi na telona o primeiro longa-metragem de
"Guerra nas estrelas". Sim, era interessante, porque apresentava
efeitos especiais até então nunca vistos... No segundo filme, já estando mais
velho, achei (peço perdão aos fãs de carteirinha!) aquilo meio fantasioso
demais, a princesa meio cafona e sem sal. Os demais filmes da série, não assisti
(na tevê, um pedaço aqui, outro ali, mas nunca de letreiro a letreiro; não
aguentei). Provavelmente, por já ter sido fisgado por "O caçador de
androides" ("Blade Runner", com uma pegada mais “noir” e existencialista),
outros filmes de ficção científica se tornaram menos interessantes. O romance
era bom. O filme, idem. E a trilha do grego Vangelis, impecável. Esse filme sobre
um futuro caótico, sim, me marcou. Até hoje a cena das “lágrimas na chuva” é
impactante... Quem já foi escravo do medo de estar vivo, também se identificará com esta cena.
Enfim, como eu disse, depois de muito tempo, reencontrei ontem
o Centro de Sampa de um jeito diferente, não é mais o mesmo que estava na minha
memória: com boas livrarias em muitas esquinas, Mappin, Mesbla, grandes cinemas
e lojas elegantes, que ofereciam nas vitrines uma infinita variedade de
produtos de qualidade (eram tempos “pré-China”).
Não. Ontem de manhã, infelizmente, achei tudo muito
massificado e enfadonho, apesar da poluição sonora (até isso era cansativo e muito
chato).
Depois de resolver algumas questões burocráticas na
Prefeitura, sentei num café, e fiquei ali, olhando, olhando, olhando. Um
estranho no ninho, era mais ou menos assim que eu me sentia. Daí, lembrei de
um comentário antigo da Bruna Lombardi, no qual ela admitia que sempre gostou dessa
"decadência assumida do centro de Sampa”. E havia mesmo, nos anos 1980 (e
até mais ou menos a metade da década seguinte), um lado "underground" nas imediações da Praça da República, com ares de
contravenção, vanguarda... Gente de várias tribos querendo sair daquele gesso
imposto pela ditadura militar: punks, darks, góticos, artistas, michês, putas, os coloridos da onda new
age, new gays e afins. Tudo ali fervilhava.
Eu amava isso! Havia um monte de personagens em cada
esquina...
Quando morei no Largo do Arouche, eu passeava à noite pelas
ruas, sozinho. Também ficava na sacada para ver o dia raiar (o povo da noite
indo embora; o do dia, chegando). Naquele tempo, eu escrevia filmes “trash”
para diretores da Boca do Lixo (e também alguns pornôs bem apimentados, com um
pseudônimo que não revelarei nem sob tortura; filmes que jamais tive coragem de assistir, mas que me renderam uma bela
grana... eu tinha apenas 18, 19... 20 anos. Moleque demais, e ainda cheio de falsos pudores). Dessas minhas andanças, surgiram
personagens da trilogia “Subterrâneos do desejo”, com “Caçadores noturnos” (Desatino,
2001), “O coveiro” (Desatino, 2003) e “O escorpião” (ainda em trabalho de parto
– difícil! difícil! difícil! –... um dia nascerá).
Dessa passagem (da noite para o dia), aqui vai um trecho:
“São Paulo fica muito esquisita nesses momentos, assim,
comprimida entre o finalzinho da madrugada e o comecinho da manhã. É como se
ainda não tivesse rosto, é só um corpo decapitado, inerte, incógnito. Não é
ainda aquela máquina fodida de fazer grana. O desatinado formigueiro humano
ainda não veio para esconder as calçadas, espantar os pombos, e as praças ainda
estão banhadas em esperma fresco. A São Paulo do dia se espreguiça, esquenta
suas turbinas; a São Paulo da noite agoniza, se prepara para o esquecimento.” (“Caçadores
noturnos”, conto “A vigília”)
Não, assim como não é mais o mesmo Centro da Bruna, também
deixou de ser o meu. A decadência continua lá, faz parte da boemia de Sampa. Porém
agora, dissimulada. Pelo menos para mim, já não tem o mesmo charme de antes.
Mas talvez ainda possa voltar a ser o que era. Enquanto burilo o texto de “O
escorpião”, preciso acreditar que sim, porque a trama se desenvolve no quarto de um hotel de viração na Boca do Lixo, que já não é mais Boca do Lixo, mas
Cracolândia... Ah, é verdade! Também já começaram a derrubar as paredes da
Cracolândia...
Pois é... Como Caetano cantou na música “Fora de ordem” (versos
que também podem definir Sampa – cidade sem igual nesse sentido... e, por isso
mesmo, assustadora e instigante): “Aqui tudo parece / Que era ainda construção
/ E já é ruína”
Quando digo: "quero ficar sozinho"... não estou triste... apenas desejando: "ficar sozinho". É simples. Ao menos para mim, não há nada de estranho em querer ficar sozinho. Mas existeuma imposição social, uma desconfiança quando você afirma que, de vez em quando, sente necessidade de estar sozinho. Quem me conhece desde pequeno sabe que sou um sujeito assim, meio antissocial, aquele que não aparece sempre nas fotos dos aniversários, nem nas ceias de Natal, nas comemorações de Ano Novo... Não é que não goste de estar com os meus amados, mas acho péssimo ser invasivo, impor afetos, cobrar atenção, declarações, visitas etc., etc., etc. Para não cometer tais indelicadezas, fico na minha.
E mais... Quando entro em "trabalho de parto" para uma nova obra, fico arredio, introspectivo, atento somente ao rebento. Há gozos, mas também dores no processo, não tem como compartilhar isso. Escrever é parir sozinho. Às vezes, à fórceps. Principalmente, quando aquele novo filho passou da hora de nascer. Acontece, fazer o quê?
Enfim... Sei que é difícil conviver com uma pessoa que admite que se sente bem com ela mesma. Isso não deixa de ser uma contravenção num mundo que exige coletividades, um deboche aos que não conseguem ficar sozinhos, uma afronta aos ilusoriamente agrupados... Sim, porque,nas minhas andanças por aí, vejo tanta solidão (a verdadeira e devastadora) nas turmas de amigos, nos casais, nas famílias, nas baladas... Ora, e vem alguém e me critica: "Como você pode gostar de ficar sozinho? Isso é doença, só pode ser? Precisa de tratamento..."
Bem... Ontem, lendo mais um livro do Reinaldo Moraes, a nova edição do romance "Tanto faz", encontrei este parágrafo que resume um pouco o que penso sobre essa "estranheza" que a minha solidão causa nas pessoas:
"A França, quietinha lá fora. Francês segura melhor a barra da solidão. O solitário no Brasil é tratado socialmente como tuberculoso e se sente pessoalmente como um leproso. Brasileiro só acata a solidão na privada e no caixão. E, às vezes, nem no caixão: quantos não caem na vala comum?"
O TÉDIO NOSSO DE CADA DIA (1) Um casal, qualquer casal. O primeiro personagem se vangloria: "Sou bem mais organizado que você." "Em quê?" "Agendo pagamento para todas as minhas contas." "E daí?" "Você deixa tudo para o último dia." "Porque talvez eu seja mais esperançoso que você." "Esperançoso... em quê?" "Sempre penso que vou morrer antes dos vencimentos e, assim, ter coragem de dar calote em alguém, nem que seja depois de morto." ..................................... O TÉDIO NOSSO DE CADA DIA (2) Outro casal. Ou o mesmo anterior. Tanto faz. O primeiro personagem suspira: "A gente podia pegar um teatrinho. Que tal?" "Qual peça?" "Uma comédia, sei lá, algo bem pra cima." "Ir até o centro pra dar umas risadas? É longe demais, não? Prefiro ver um filme velho na TV." "É longe, mas depois do teatro a gente pode dar uma esticadinha." "Esticadinha, você e eu, só se for na cara." "Passa o controle, vai. Vou ver se acho um filme velho..."
Hoje, indo a pé na direção da avenida Giovanni Gronchi, fiquei
a alguns passos de distância de dois garotinhos (aparentemente, vendedores de
balas e malabaristas de semáforo). Lá pelas tantas, enquanto aguardávamos para
cruzar a rua, eles discutiram sobre guerra e futebol:
“Guerra tinha que ser assim: eles deviam ajudar quem
precisa. O mundo tá cheio de gente precisando de tudo. Daí, quem conseguisse ajudar
mais, pronto: vencia a guerra.”
Ao que o outro logo emendou:
“Com torcida de futebol, também. Em vez de quebrar tudo, por
que eles não se juntam para ir por aí, dando comida e remédio? Quem fizesse
mais [pelos outros], podia ganhar uns pontinhos pro time...”
Palavras de quem, historicamente, não tem voz (nem vez).
Aquilo me comoveu à beça. Senti vontade de abraçar e beijar os dois, mas, nestes tempos
de fascismo(s) e fúria(s), talvez alguém que estivesse passando por ali me
denunciasse por crime de “abuso” contra menores. O jeito, então, foi me limitar
a piscar e fazer sinal de positivo para eles. Mesmo assim, tomara que ninguém tenha fotografado/filmado; hoje, tudo que você fizer, por melhor e mais bem-intencionado que seja, dependendo de quem estiver do outro lado da lente, pode ser interpretado como "imoral", "pecado" e/ou "aberração".
Mimimi, claro. Tbém tenho esse direito, ora! E a "coisa" é mais ou menos assim: sempre estou disponível. Pediu, levou. Porém, quando a situação se inverte (o que é raro), recebo sempre: "já-já", "agora não posso", "mais tarde, talvez", "desculpe, mas tô ocupado demais"... e assim por diante. Daí, resolvo "dar" um retumbante "NÃO" para as futuras solicitações... e passo a ser "insensível", "um monstro egoísta", "um cara frio" etc. Pois é... Costumo dizer que a sociedade é separada por uma bandeja: existe o lado "dos que são servidos" e o "dos que servem"... Devo ter nascido desse outro lado, né? Fazer o quê? Bom, como desde pequeno me deram a pecha de louco, qualquer dia tasco essa bandeja na cabeça dos que sempre aparecerem para me "sugar" algo. Aviso dado, ok?
Hoje à tarde, estropiado, deparei com uma fábula antiga. Texto
“edificante” e, sei lá, acho que até meio “bíblico”. Era mais ou menos assim:
Um mestre e seu discípulo foram acolhidos por uma família em
um casebre caindo aos pedaços. Ali, havia apenas uma vaquinha cansada e muito
magra... Intrigado com aquilo, o mestre perguntou ao dono da casa o que ele
fazia para manter a mulher e tantos filhos naquele lugar no meio do nada.
O homem apontou para a sua vaquinha desmilinguida e disse,
conformado:
“Ela é tudo que temos nessa vida e nos dá o que precisamos:
leite, coalhada, queijo... Quando sobra, vamos até a cidade e trocamos por
outros mantimentos e até por alguns trapinhos.”
O mestre agradeceu a hospedagem e se retirou com o seu
discípulo. No caminho, ordenou:
“Volte lá e sacrifique aquele pobre animal, que já não
aguenta mais ser tão explorado!”
O discípulo, mesmo não concordando com aquele absurdo, fez o
que o mestre pediu.
Anos depois, ainda se sentindo muito culpado por ter feito
um mal tão grande, tanto para um bicho indefeso quanto para aquela família de
miseráveis, o discípulo resolveu voltar lá, carregando uma mala cheia de comida
e roupas.
Ao chegar, não encontrou o casebre, mas uma casa enorme, com
piscina e um grande rebanho de vacas que, de tão robustas, mal cabiam no pasto.
Avistando um homem muito bem-apanhado, perguntou se ele, por
acaso, sabia do paradeiro da antiga família que morava ali. Não naquela mansão,
mas em uma casinha muito humilde.
A resposta: “Sempre vivemos aqui. Éramos muito pobres, sim. Mas,
numa tarde, apareceu um velho que mandou matar a vaquinha que nos dava tudo.
Empurrados pela necessidade, descobrimos que podíamos ganhar a vida de outro
jeito. Arregaçamos as mangas, ficamos ricos.”
.......
Moral da história (by Felipe Greco): Jogue logo essa sua
vaca murcha no brejo, tome vergonha na cara e, em vez de ficar reclamando da merda
alheia, limpe a própria bunda e vá à luta, pô!
Gostaria de estar equivocado, mas cada vez percebo mais que muitas pessoas acham que a vida é uma rua de mão única. É não, gente! O que se recebe de bom tem que ser devolvido em igual ou maior proporção. E regras simples de civilidade, por exemplo, não devem ser esquecidas. "Obrigado", "olá", "(com) licença" etc., não são meros verbetes de dicionário. Enfim... É bom lembrar que "rua de mão única" também significa "caminho sem volta". Pra quem servir a carapuça, tá dado o recado. Fui!