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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

A criança terrível ("L'enfant terrible")



“Deveria ter o meu inferno pela cólera, meu inferno pelo orgulho, – e o inferno da preguiça; um concerto de infernos.


“Morro de cansaço. É o túmulo, vou para os vermes, horror de

horrores! Satã, farsante, queres dissolver-me com teus feitiços?

Exijo. Exijo! um golpe de tridente, uma gota de fogo.”


...................................


“Je devrais avoir mon enfer pour la colère, mon enfer pour l’orgueil – et l’enfer de la caresse; un concert d’enfers.


“Je meurs de lassitude. C’est le tombeau, je m’en vais aux vers, horreur de l’horreur! Satan, farceur, tu veux me dissoudre, avec tes charmes. Je réclame. Je réclame! un coup de fourche, une goutte de feu.”


(Arthur Rimbaud, trecho de UMA ESTAÇÃO NO INFERNO, 1873)



Jean-Nicolas Arthur Rimbaud foi amante de Paul Verlaine, poeta francês que abandonou a mulher e o filho pequeno para viver essa paixão fulminante e explosiva por um adolescente de temperamento forte e atitudes fora dos padrões (“l’enfant terrible”). Numa crise de ciúme e alcoolizado, Verlaine deu dois tiros no amante, que já havia completado 18 anos. Uma das balas pegou no pulso do rapaz. Mesmo sem ser denunciado pela vítima, Verlaine foi condenado a dois anos de prisão.

Dos 15 aos 18 anos, Rimbaud escreveu obras-primas que só seriam devidamente valorizadas um século depois (e acabariam influenciando grandes músicos, poetas e escritores). Aos 20 anos, desistiu de escrever e foi para a África negociar café e armas. Não precisava mais escrever; o que tinha a dizer, já havia dito. 

Viveu intensamente. Teve mulheres como amantes em várias partes. Sabe-se que uma da Etiópia foi a que ficou mais tempo com ele. Em um acidente, Rimbaud machucou a perna direita que, anos depois, precisou ser amputada – porém o carcinoma já havia se formado no joelho. 

De volta a Marselha, França, aos 37 anos, após muito sofrimento, morreu de câncer. Era 10 de novembro de 1891.





sábado, 9 de maio de 2020

Dia de todas as mães



Sobre o instinto de proteger a vida dos filhos ou filhotes, lembro-me de um fato que testemunhamos (Rogério e eu) num domingo de primavera. Já faz bastante tempo... Latidos insistentes nos acordaram bem cedo. Eram de uma cadelinha muito magra... Havia um terreno baldio em frente ao nosso condomínio, com muros altos e um portão de ferro. A cachorra tentava passar pelas frestas do portão, cavando inutilmente o concreto da calçada. Estava muito aflita. Dois rapazes passavam pela rua, então gritei para eles verem o que estava acontecendo com o animal. Eram filhotes: ela tinha parido, e alguém havia jogado os filhotes dela naquele terreno, dentro de uma caixa de papelão. Enquanto eu me preparava para descer, um vizinho tentou capturar os filhotes com um galho, mas eles estavam longe demais do portão; não dava para puxá-los... e a mãe, ao lado dele e com as patas já em carne viva, continuava tentando fazer um buraco no cimento. Não adiantava tentar afastá-la; ela voltava... e seguia cavando.

Quando consegui ir até lá, o tal vizinho já havia passado a cadelinha por cima do muro. Agora mais tranquila e deitada no meio dos entulhos, ela amamentava os filhotes.

Não tinha muito o que fazer naquele momento. Por sorte, era um dia bonito. Graças aos tocos de árvores e caixotes amontoados do lado de dentro, a cadelinha podia sair daquele terreno, mas não conseguia entrar. Duas ou três vezes durante aquele dia, eu e outras pessoas a ajudamos a pular o muro para que pudesse amamentar os filhotes. Enquanto isso, pensávamos no que podia ser feito para resolver aquela situação.

Eram quatro filhotes: três fêmeas e um macho. Uma das fêmeas, branca e caramelo, tinha um olho azul e outro castanho bem claro. Temíamos que eles saíssem pelas frestas do portão e fossem atropelados pelos carros ou caíssem no bueiro. Resolvemos isso, cobrindo a parte inferior do portão com madeiras.

Segunda-feira, fomos no primeiro horário até uma ONG de animais, que nos instruiu e forneceu equipamento adequado e um ajudante para o resgate dos filhotes. Deu tudo certo. A ONG ficava perto dali; a mãe dos filhotes nos seguiu à distância, mancando e ainda apreensiva. Logo depois das primeiras vacinas e da castração, os filhotes foram adotados. O ideal seria que a mãe os amamentasse até o fim, também fosse castrada... mas, talvez por ter visto que os filhotes estavam bem, ela desapareceu. Devia ter um “dono”. Cães, mesmo recebendo maus-tratos, tendem a permanecer fiéis aos seus tutores.

A maternidade é algo que os homens jamais compreenderão. Essa força que liga a mãe aos filhos é sobrenatural, não tem como medir. Entre os humanos (diferente do mundo animal), é claro que existem exceções. De vez em quando, os noticiários nos apresentam casos extremos de mulheres que abandonam, maltratam, exploram e até chegam a mutilar os seus rebentos. Felizmente, são exceções. A regra é a do amor incondicional para o resto da vida. Mulher é mãe, sempre... seja de filho natural, seja de filho adotado, seja de amigos, seja dos próprios pais e avós, enfim, têm esse instinto de proteger, cuidar até o fim... e com uma força que ninguém sabe de onde elas tiram. Tenho minha mãe de sangue, mulher guerreira e de muita fibra, a Negrinha (ela detesta ser chamada pelo nome de batismo e tratada por “dona” ou “senhora”). Também tive outras protetoras ao longo dessas minhas andanças e tropeços. Relacioná-las aqui? Ih, a lista seria loooonga... E como escolher a ordem dos nomes? Daria confusão, porque elas são muito ciumentas.    

Então, a todas as mulheres, feliz Dia das Mães!




segunda-feira, 20 de abril de 2020

Como em Macbeth




Nasci, cresci, fui adolescente e me tornei adulto durante a ditadura militar. Soube de pessoas perseguidas, torturadas e que ficaram com sequelas importantes. Um professor homossexual, um pouco mais próximo do meu círculo de amizades, suicidou-se depois de ter sido preso durante uma batida policial de rotina. Vítima de estupro coletivo, sangrou quase até a morte com o reto perfurado com cacos de vidro de uma garrada de refrigerante. Primeiro introduziram, depois quebraram a garrava com chutes e pauladas. Nunca se refez totalmente da agressão. Deprimido, pulou de um prédio na  Roosevelt, em São Paulo.

Admito que, por mais que estudasse o tema, eu não conseguia entender direito como a nossa sociedade tinha deixado a barbárie tomar conta do país. 

Agora, sim, entendo que foi uma parte da sociedade que pediu que aquilo acontecesse, por ser truculenta, autoritária, intelectualmente acomodada e acostumada ao cabresto. E a outra parte, por cruzar os braços, assistir de longe e silenciar, foi tão ou até mais culpada. 

Esse pensamento de “se não é comigo, não me interessa” é mesquinho, triste, desolador e revoltante. Não é um comportamento democrático, nem civilizado.

Antes, já tinha acontecido outra ditadura, a Vargas. E no início, o império, a colônia. Também tivemos (ainda temos) o extermínio de povos indígenas, o horror da escravidão (último país a abrir mão do trabalho escravo)... 




Direta ou indiretamente, todos nós somos culpados.

O tal clamor de “nossa bandeira jamais será vermelha” é falso. Ela já está vermelha: de sangue! O Brasil não é, nem nunca foi uma maravilha. Isso é outro mito. Cristãos hipócritas, ajoelhamos diante da cruz, mas com muito sangue nas mãos... é isso que somos. Em determinados períodos sombrios, sentimos muito orgulho disso.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Teias na tela e na história





Acabei de ver O BEIJO DA MULHER ARANHA, baseado no romance de Manoel Puig, com William Hurt, Raúl Juliá e Sônia Braga, direção de Héctor Babenco e figurinos de Patrício Bisso. Hurt ganhou Oscar de melhor ator e outros grandes prêmios. Raúl Juliá morreu novo, em 1994, de AVC. Babenco, em 2016, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Patrício Bisso, em 2019, de infarto fulminante. Sônia, mais velha e livre do peso de ser símbolo sexual latino, tem dado uma bela guinada no currículo. Hurt, infelizmente, não fez outro filme de sucesso. Não como O BEIJO...




A obra foi lançada em 1985, quando saíamos da ditadura militar. Com 17 anos, eu tinha acabado de vir morar em Sampa. Havia um beijo na boca entre os personagens do Raúl Juliá (guerrilheiro, hétero e preso político) e o do William Hurt (gay assumido e companheiro de cela). Os militares e a direita (o que era praticamente “sinônimo” – era?) torceram o nariz, mas já não podiam mais censurar; alguns da esquerda também não gostaram muito do filme, porque colocava um guerrilheiro fiel à causa se deixando levar por um envolvimento gay. Era pelo que os personagens significavam, não o beijo em si, pois, em 1980, Tarcísio Meira e Ney Latorraca já tinham se beijado até com mais sensualidade e emoção na cena final de O BEIJO NO ASFALTO, adaptação para as telonas da peça de Nelson Rodrigues. Mas O BEIJO DA MULHER ARANHA, por ser produzido também pelos EUA, foi exibido em todo o país. Ganhou muitos prêmios, Sônia Braga foi fazer carreira nos exterior e o livro virou musical de sucesso na Broadway.


Eu, bem novinho, logo passei a escrever roteiros na Boca do Lixo, filmes de terror “trash”.

Vendo novamente esse belo filme, outro passou na minha cabeça. Sonhávamos tanto nesse tempo, líamos pilhas de bons livros, víamos grandes peças e também éramos ratos de cinema (Godard, Wenders, Kurosawa, Bergman, Ana Carolina, Babenco, Ruy Guerra, Fellini, Pasolini, Nagisa Oshima, David Lynch, David Lean, Peter Greenaway, Wood Allen e tantos outros mestres), queríamos e lutávamos pela democracia. E conseguimos... Mas agora, com tudo isso, tanto ódio e retrocesso, parece mentira que deixamos escapar tudo aquilo... Dá um nó por dentro. O bom é que o filme não envelheceu, coisa rara no cinema nacional. Eu sim, me senti cansado e velho.

Bem, missão cumprida: enfrentamos as censuras, os hipócritas de sempre, quebramos tabus, vivemos plenamente. Se a nova conquista da democracia e da liberdade foi recusada, paciência. Que as novas gerações lutem (se é que vão lutar) pelo que acharem certo e mais apropriado para as suas necessidades. O tempo e as cabeças mudaram. Assistirei a essa nova fase apreensivo, mas já sem tanta empolgação. Não vale a pena. Este país nunca deixará de ser o que é. A diferença é que daqui em diante talvez já sem os falsos mitos e também sem as máscaras de povo cordial e solidário. Não somos, nunca fomos. Sempre flertamos com o autoritarismo e o fascismo. Volta e meia, essa nossa natureza se recolhe, mas sempre que se sente acuada, mostra os dentes, rosna, ataca.


terça-feira, 31 de março de 2020

Hipócritas da fé



Belo e muito significativo esse gesto do papa. No entanto, já o estão chamando por aí de “velho comunista defensor de bandidos”. Sim, também de argentino FDP. Estava demorando para colocarem defeitos nele por ser argentino.

Ora, e Jesus, que tanto apregoam nas redes sociais, fez o quê? Acumulou posses para si, estocou peixes, pães e ouro? Viveu nos palácios entre os imperadores? Se tudo isso é verdade ou não, não sabemos, mas é o que está registrado no Novo Testamento. Deve ser um guia básico de comportamento para o cristão.

Já leram? Mas leram mesmo? Entenderam?

Pois é, vemos que muitos estão de joelhos diante da cruz, mas com os bolsos cheios de pedras, punhais e pólvora.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A atriz e o poeta



Sexta-feira passada, fomos à estreia de MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO, da obra do poeta Manoel de Barros, interpretado por Cássia Kis e dirigido por Ulysses Cruz. 

Engraçado como a vida vai e volta em espirais... Logo que vim do Sul para São Paulo, fui apresentado à loucura e ao intenso mundo poético de Arthur Rimbaud, menino terrível do século XIX, que viveu um amor tempestivo e quase trágico com Paul Verlaine (poeta parnasiano já renomado naquele período). Rimbaud escreveu toda a sua obra com menos de vinte anos, depois foi traficar armas na África. Nunca mais escreveu. Só foi ter reconhecimento muito, mas muito depois de sua morte. Era gênio. O mundo raramente reconhece os gênios no tempo certo.


Manoel de Barros, nascido em Cuiabá, morreu recentemente, em 2014. Pelo que li, o verso livre, libertário e contraventor de Rimbaud o soltou das amarras do poema com suas regras e métricas. Poesia em prosa, talvez por ir mais além, também vai mais fundo. Rimbaud escreveu seu (até hoje) insuperável e arrebatador UMA ESTAÇÃO NO INFERNO (“Une saison en enfer”). Barros, nesse espetáculo, escancara o seu “imenso quintal interior”, oferecendo ao público palavras que servem de escadas/pontes para um resgate afetivo de memórias muito especiais. Aliás, vários resgates: também o de palavras muito bem polidas (algo raro hoje). Admito que poetas me assombram; eles nos enfeitiçam com palavras e imagens vivas demais. 


Cassia Kis brinca em cena, no melhor sentido. Não é a atriz, mas o poeta entretido nesse ofício de polir versos, incansavelmente. Ela, com uma paixão antiga pela poesia de Manoel de Barros, tinha esse projeto engavetado por trinta anos. Aquele “quintal maior que o mundo” também é dela (e com ela em cena... também passa a ser de todos nós).


Já fui apresentado a Cássia pelo Ulysses, mas brinco com ele, dizendo que tenho medo dela, porque essa atriz possui uma força que talvez possa bater direto com o meu destempero. Sou explosivo, acho que ela também é. Daí, talvez seja melhor manter a distância. “Medo” não é a palavra, mas “respeito”. Tenho um profundo respeito pelo trabalho visceral e pela “verdade” dessa profissional em cena (principalmente, no cinema).


No entanto, depois do espetáculo, foi oferecido um coquetel. Ulysses não foi. Ele não vai às próprias estreias, assim como eu tenho tentado evitar lançamentos de livros meus. Esse povo das artes é meio doido (ou totalmente). 🤪🤪 Eu, decidido a não ficar para o brinde, aguardava para sair. Nisso, a atriz veio... ia passar onde eu estava. Sorri cordialmente. Ela parou, segurou a minha mão e ficou ali... Apesar de cansada (fazer um monólogo é exaustivo), ela me transmitiu muita serenidade. Não me soltava, como se tivesse lido os meus pensamentos e quisesse dizer que tudo aquilo era bobagem da minha cabeça: poetas não são bruxos e atrizes (como ela) não mordem. Antes de se afastar, disse: “Fique aí, não vá embora!” 


Não fiquei. Não adianta; muitas coisas ainda me assombram. Sem isso, sem essas “pendências” pessoais (ou “esquisitices”), a arte não surge (não com tanta força).  


Belo e importante espetáculo! 


Grato, Ulysses! Grato, Cássia! Grato, Manoel de Barros! Está em cartaz. O Teatro-D, novo no Itaim Bibi, é muito bonito. Fica na rua João Cachoeira, 899 / São Paulo - SP. Telefone: (11) 3079-0451 


Bora lá (re)ver a importância da palavra bem polida! Versos nos atiçam e, ao mesmo tempo, dão uma amansada nos nossos fantasmas. O nosso quintal interior tem muita coisa bonita, mas também muitos espinhos.



sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Tudo tem uma história




Saudosismo? Pode ser... mas a verdade é que tem uma coisa que bate muito fundo em mim quando vejo enfeites de Natal antigos. Eram tão frágeis, muito difícil que durassem de um ano para o outro. Relíquias. Esse era o charme. 

Na minha infância e adolescência, sempre tivemos árvore de Natal em casa, algumas mais simples, feitas com galhos secos forrados com algodão... outras já bem cheias de bolas e lâmpadas coloridas compradas em lojas. Porém lembro que eu ficava fascinado em admirar a árvore da casa de outras pessoas. Cada uma, de certo modo, revelava um pouco da história daquela gente. Havia árvore exuberante, discreta, singela, engraçada, cafona e também as que carregavam um pouco de melancolia e solidão.


Em Buenos Aires, perto do famoso obelisco no cruzamento das avenidas Corrientes e 9 de Julho, há uma loja que só vende enfeites de Natal. Em duas viagens, tentei comprar algo lá, mas ela estava sempre fechada. Dava para ver apenas as vitrines com árvores, enfeites e luzes. Embora eu suspeite que não sejam enfeites antigos, tem algo naquela loja que me atrai muito. Ainda vou conseguir comprar lá... talvez o relógio cuco que vi na vitrine. Parece ser de vidro. É bem pequeno, feito para pendurar na árvore de Natal. Tomara que seja antigo, legítimo e que já tenha pertencido a alguém. Dane-se! Vou trazer na mão. Chegará inteiro. E que no caminho de volta ele deixe escapar alguma história; esses enfeites têm muita coisa pra nos contar.  De um Natal para o outro, vão guardando um pouco de nós. Quem monta uma árvore, sozinho ou acompanhado, conversa em pensamento com eles. Vários filmes passam na nossa cabeça. Alguns são maravilhosos, outros nem tanto.




quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Mentira dá lucro (e poder)



Está de volta aquele desafio de publicar fotos em preto e branco para lembrarmos da importância da prevenção do câncer de mama. Ok, é uma ação nobre e muito válida. Mas hoje, melhor e maior desafio seria mostrar os seios nas redes e mandar para os puritanos de plantão.

Sempre achei injusto isso de as mulheres não poderem mostrar livremente os seios, que são, para mim, o maior símbolo de sobrevivência e amor à vida. É a primeira fonte do alimento mais importante que recebemos. As mães continuam se doando aos seus rebentos depois do parto, passando a eles o que elas têm de melhor e mais puro: alimento, anticorpos, vitaminas, todo o cuidado e afeto. Essa cumplicidade com o filho somente as mulheres têm.     


Daí a terem transformado os seios em pornografia, erotismo, vulgaridade, vergonha etc., foi uma grande artimanha (mais uma vez) contra as mulheres na tal evolução da nossa espécie/sociedade. Para quem tem imaginação aguçada, tudo pode ser erótico: olhos, cabelos, pescoço, lábios, cotovelo, pés... "Golden shower" (sim, aquela inquietação/curiosidade do presidente), beijo grego, por que não? Desde que consentindo, o fetiche sexual é livre. Pois é... E houve época em que a mulher não podia mostrar perna, braço, pescoço (isso ainda acontece em algumas culturas). Mas logo na ocidental, que já levantou tantas bandeiras e derrubou incontáveis tabus, o seio feminino ainda precisa andar escondido? Conheço “marombados” que têm peitos maiores que muita mulher, e eles podem exibir livremente essa parte do corpo como um troféu, um sinal de virilidade e sei lá o que mais que inventam por aí.


Uma mulher amamentando o filho em público, isso é pecado, atentado ao pudor...?


Que porcaria de olhar é esse do homem que só vê (e impõe) o “condenável” e o “feio” ao corpo da mulher? Em que etapa da vida começa a ficar torta essa visão, já que nascemos sem essas travas na mente?


Do homem andar com o pênis escondido, até entendo: uma proteção necessária ao órgão nos primórdios, pois é uma parte do corpo muito vulnerável. Depois que saímos das cavernas, não deve ter demorado muito para voltar a ser protegido; agora não apenas em uma caçada ou luta, mas também do olhar “do outro”. A grande competição entre os do sexo masculino (héteros ou gays) é pelo tamanho do pênis, como se isso definisse macheza, virilidade, sinal de qualidade reprodutora e, claro, satisfação garantida.


Dou gargalhadas quando leio depoimentos de mulheres que admitem: “Olha, amor vale muito para mim, mas que o tamanho do pinto faz uma diferença danada, isso faz”. É um tipo de vingança instigar ainda mais esse assombro àqueles que desde sempre se especializaram em criar amarras somente (ou “principalmente”) para as mulheres.


Sentindo vontade, amigas: peitos guerreiros pra fora!


Que se danem os hipócritas!


Firmes, já meio caídos, grandes, pequenos, murchos, tatuados, espetados por enfeites, siliconados, machucados, já retirados por tumor, todos são belos!


O tal “pecado” só existe na cabeça, não nos corpos. “Inferno” é só um bom negócio, uma ideia de castigo que dá muito lucro e poder aos que pregam o medo do diabo, da condenação ao fogo eterno e blá-blá-blá para que isso facilite e valorize o “comércio da salvação” praticado por muitas religiões que são caça-níqueis.


Bem mais evoluídos nesse sentido, os outros animais não caíram nessa armadilha que um espertalhão inventou bem lá atrás, desde aquela malfadada mordida que dizem que a Eva deu na maçã. Ali, não do pecado, mas deve ter sido a origem das “fake news”.





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Saudade é saber que não tem mais volta





Nesse novo trabalho, com desabafos de mulheres que fui conhecendo ao longo da vida (cresci no salão de beleza da minha mãe), tento captar as vozes (muitas em primeira pessoa) de pessoas que viveram sem medo de viver. Não é fácil. Sou homem, e estar ali, como mero “registrador” desse universo feminino e tão particular, não deixa de ser uma intervenção, um olho do outro lado da fechadura, de voyeur ou espião. Há as loucas, as apaixonadas, as viciadas, as putas, as que se anulam, as que enfrentam, as que vencem. Na que estou agora timidamente tentando ganhar a sua confiança, é de uma mãe, mulher intelectual, de casamento tido como perfeito, filhos gêmeos marido bem-sucedido, oficial do Exército, aquele que era o sonho de qualquer mulher do colégio e da faculdade. Um dos gêmeos, o que mais se destacava em tudo, numa bela noite de Ano Novo, já adolescente, depois de beijar todos na mesa, vai para o quarto dos pais e, logo depois, ouve-se um disparo de pistola automática. O mais belo dos gêmeos está morto, rosto destruído... e deixa de herança uma condenação a todos: “por que fez aquilo?” Aos poucos, todos se calam na casa. São estranhos sob um mesmo teto. A mãe mantém o quarto do filho morto intacto. Prepara ainda o bolo favorito dele e leva ao túmulo, com velas e tudo, para comemorar o aniversário. “Era um menino tão alegre, mas infeliz. Ninguém percebeu isso.”, diz a mãe, e se culpa por não ter se dado conta de nada. “A gente sempre vê o que quer ver deles, nunca como os nossos filhos são de verdade”, desabafa em determinado momento.
Penso que hoje, nas redes de solidão, muitos querem mostrar o que gostariam que os outros vissem, não o que são de fato. Um tipo de suicídio homeopático é matar a nossa verdadeira natureza.
Vejo isso muito na arte em geral: artista começa a morrer quando quer apenas o reconhecimento, o sucesso, a fama. O artista que está preso a essa ideia de sucesso, vai se matando a cada novo trabalho. Artista não é, nem pode ser escravo de nada. Artistas genuínos colecionam mais fracassos que sucessos. O tempo é que corrigirá isso mais adiante. Se teme e sofre com os fracassos, é um operário da arte, não um artista de verdade. O suicídio do filho amado é uma metáfora aos tempos atuais. Contudo, não sei se essa mãe muito ferida vai se abrir totalmente comigo. Vamos ver. De vez em quando ela me dita coisas. Depois passa meses calada.

"Oh, pedaço de mim / Oh, metade arrancada de mim / Leva o vulto teu / Que a saudade é o revés de um parto / A saudade é arrumar o quarto Do filho que já morreu” (“Pedaço de mim”, Chico Buarque)


Sugiro essa entrevista recente do Woody Allen. Tenho quase todos os livros dele. Do cinema, já não curto essa última fase. SETEMBRO (lançado em 1987), na minha opinião, ainda é imbatível.  

Aqui, o link para a matéria:


   

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Escorpião - nova temporada da peça



Hoje à noite: início da nova temporada de ESCORPIÃO. Agora na Sala do Coro do imponente e importante Teatro Castro Alves (TCA). Bora lá ver mais essa produção do Grupo ATeliê voadOR.

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Compartilhando / NOVA TEMPORADA                                                          .............................................                                              EsCOrPIãO
Teatro/Filme
2ª temporada

Após o grande sucesso da primeira temporada, Escorpião reestreia em Salvador
26 de Julho a 18 de agosto
Sempre às 20h - De quinta a domingo
Na Sala do CORO do Teatro Castro Alves [estacionamento no local]                                                                             
*** Venha desvendar esse misterioso assassinato e vivenciar uma experiência visual, sensorial e sonora. 

+18 [cenas de nudez e violência]




Da obra homônima de Felipe Greco 
Encenação Marcus Lobo
Com: Duda Woyda e Gleison Richelle
Realização da Ateliê Voador Teatro com parceria do Coletivo SALVA


 




Esta produção conta com 35 artistas interdisciplinares do Cinema, Teatro, Música, Arquitetura, Moda dentre outros profissionais que se beneficiaram desse projeto direta ou indiretamente, responsáveis pela bilheteria - carreto - alimentação - comunicação. Respeito aos profissionais das “Artes do Espetáculo”. Vá ao TEATRO.