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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Escorpião - nova temporada da peça



Hoje à noite: início da nova temporada de ESCORPIÃO. Agora na Sala do Coro do imponente e importante Teatro Castro Alves (TCA). Bora lá ver mais essa produção do Grupo ATeliê voadOR.

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Compartilhando / NOVA TEMPORADA                                                          .............................................                                              EsCOrPIãO
Teatro/Filme
2ª temporada

Após o grande sucesso da primeira temporada, Escorpião reestreia em Salvador
26 de Julho a 18 de agosto
Sempre às 20h - De quinta a domingo
Na Sala do CORO do Teatro Castro Alves [estacionamento no local]                                                                             
*** Venha desvendar esse misterioso assassinato e vivenciar uma experiência visual, sensorial e sonora. 

+18 [cenas de nudez e violência]




Da obra homônima de Felipe Greco 
Encenação Marcus Lobo
Com: Duda Woyda e Gleison Richelle
Realização da Ateliê Voador Teatro com parceria do Coletivo SALVA


 




Esta produção conta com 35 artistas interdisciplinares do Cinema, Teatro, Música, Arquitetura, Moda dentre outros profissionais que se beneficiaram desse projeto direta ou indiretamente, responsáveis pela bilheteria - carreto - alimentação - comunicação. Respeito aos profissionais das “Artes do Espetáculo”. Vá ao TEATRO.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Subterrâneos do desejo




Bem no dia do meu aniversário, chega da gráfica a caixa-luva, na qual também irão "embalados" os títulos da minha trilogia. Digo "também", porque as três obras poderão ser adquiridas "separadamente" ou a "coleção completa", dentro dessa caixa-luva.
  
Em breve, publicarei trechos e outras informações sobre esse trabalho que fechará um ciclo da minha ficção.

Na preparação, revisão, edição e produção editorial dos três títulos da trilogia SUBTERRÂNEOS DO DESEJO, para reduzir custos e ter maior controle sobre o resultado, cuidei de todo o processo: edição, projeto gráfico, diagramação, escolha de papéis, acabamentos, tudo foi feito por mim. Será uma edição bem caprichada, com acabamento de primeira. Por ser algo muito pessoal, eu teria que me comprometer com tudo até o fim, colocar uma “marca”.

Como eu disse, é a despedida de uma fase no trabalho de um contador de histórias; precisava, então, ser encerrada da melhor forma possível.

Se é loucura publicar atualmente qualquer livro? É, sim. Mas não sou de deixar nada pela metade. O que começo, também finalizo. Bem ou não tão bem como deveria ser, finalizo.

Foram quase dois anos de trabalho, e contei com parceiros maravilhosos, como o artista Cláudio Duarte, que produziu os desenhos em preto e branco para as capas de CAÇADORES NOTURNOS e ESCORPIÃO... e permitiu que eu os colorisse. Para O COVEIRO, não: trabalhei a arte da capa a partir de uma imagem mais recente do meu próprio crânio. Sim, também pude contar novamente com outros colaboradores que me acompanham desde o início: Ana Maria Barbosa, revisora, e Marcia Stecca, na parte gráfica.

Chega, então, o momento de botar os filhos no mundo.

Reduzi todos os custos para que os exemplares fossem vendidos a um preço justo. Será uma edição limitada, com qualidade para colecionador. O autor cuidando de toda a edição, o que não é comum na área.

Aqui, um aviso importante: as narrativas são um salto para dentro e, como diz o título da trilogia, no mais profundo do desejo sexual, sem fazer concessões (o que pode causar espanto e até escândalo). É uma literatura mais pesada, densa e tensa (ou texto marginal, como alguns costumam classificar). De modo que eu não gostaria de enganar os que me acompanham, admiram e curtem as publicações nas minhas páginas nas redes sociais e blogue. É uma obra dura, para mexer com aquilo que muitas vezes ocultamos de nós mesmos. Como declarei na apresentação de outro livro (RELICÁRIO, lançado pela GLS/Summus em 2009), escrevi essa trilogia “para mergulhar nos meus subterrâneos e arejar um pouco o meu ‘bau freudiano’ de totens e tabus”.

Uma catarse? Sim, pode ser para alguns. Para outros, um soco no estômago, uma provocação.

Recado dado.

Até mais...

sábado, 11 de maio de 2019

Subterrâneos do desejo



Hoje, levar ao palco um texto underground, como ESCORPIÃO, é um ato de coragem. 

Estive em Salvador apenas uma vez (e rapidamente; eu era passageiro de um navio, desci apenas para visitar o Pelourinho e o Mercado Modelo). Embora eu saiba pouca coisa sobre a montagem, é uma honra ver um texto meu, que teve a primeira versão concluída em 2010 em Niterói (RJ), receber agora, nove anos depois, uma espécie de “batismo” na Terra de Todos os Santos e em um teatro com uma história de resistência tão linda e importante.

O Teatro Vila Velha (www.teatrovilavelha.com.br) foi inaugurado em julho de 1964 (três anos antes do meu nascimento). A primeira peça apresentada foi ELES NÃO USAM BLACK-TIE, também primeira obra teatral escrita por Gianfrancesco Guarnieri (em 1958). Começava ali um tempo complicado para o nosso país, uma história de ditadura ainda bastante nebulosa. 

Se vamos enfrentar problemas com os hipócritas e moralistas de plantão? Não sei, pode ser que sim. Tomara que não; esse tipo de "confronto" já deu o que tinha que dar.  

Farei o possível para assistir à montagem, mas isso não depende só da minha vontade. 

Torço para que seja um trabalho dramaticamente impactante e bom para todos os envolvidos. 

Da trilogia SUBTERRÂNEOS DO DESEJO, que será lançada em breve e da qual ESCORPIÃO é uma das obras (junto com CAÇADORES NOTURNOS e O COVEIRO), começaremos a divulgar o material aos poucos nas redes sociais.

Vale lembrar que sou muito grato à antiga Funarte e ao valente (e importante!) Grupo Diversidade Niterói (GDN). Sem o Prêmio de Interações Estéticas e sem o acolhimento do pessoal do GDN, o texto seria apenas um esboço. Uma vontade. Não vingaria.

Avante, Companhia Ateliê Voador! 

Evoé!

Axé!

sábado, 13 de abril de 2019

A mulher do quindim




Já devo ter contado essa história, mas vamos lá... 

No ônibus, uma idosa muito simples disse para a amiga que tinha comido um quindim. 

“Um quindim!”, comemorou. “Um desses bem grandes que a gente só vê em propaganda!”

Havia comido com vontade e se lambuzado toda naquele desejo saciado. Fazia tempo que queria devorar o doce, mas não tinha condições de comprar. Estava radiante por ter cometido sua extravagância gastronômica.   

Encantado com aquilo, quase passei do meu ponto. 

Eu podia saltar e comprar um quindim para tentar repetir a experiência fabulosa que ela viveu. Naquele momento, por ser uma fase de vacas gordas (algo cada vez mais raro na vida dos ficcionistas), eu poderia comprar dois, três, uma caixa de quindins ou devorar um quindão inteiro... mas seria inútil. 

Ainda vou encontrar e me dar por satisfeito com o meu “quindim”. 

Que tapa na cara a tiazinha me deu! Já vivi mais de meio século, pode ser que eu ainda tenha tempo de encontrar um por aí, tão maravilhoso quanto o dela.

Bom final de semana!

Obs.: recebo críticas a todo instante por me recusar a dirigir automóveis. Sendo um cara solitário desde sempre, pra que vou me isolar mais ainda em uma lata ambulante, se são essas pessoas anônimas que me empolgam mais que tudo? Pode ser que eu coloque essa “mulher do quindim mágico” numa história. Um dia, talvez.


quarta-feira, 13 de março de 2019

Tá ruim? Calma; você ainda não viu nada!





Sou do tempo da Varig, quando serviam lanches, refeições e até vinho de qualidade nos voos (e para todas as classes). 
Neste último que fiz para a Bahia, nem amendoim com guaraná serviram aos passageiros. Lá pelas tantas, passou um carrinho oferecendo lanches, refeições etc., mas pagos. Diziam no sistema de som: 
“Mercado Latam para melhor servi-lo”. 
Ah, para! 
Que "diacho" é isso? 
Os funcionários ofereciam aquilo intimidados. Só faltou gritarem: 
“Eu podia estar roubando, matando, pedindo esmola... mas não, estou aqui, vendendo essas gororobas para enriquecer ainda mais a companhia, que já cobra até para carregar as malas de vocês, otários!”
Pois é... 
Aliás, por falar nisso... os exaltados da classe média, que detestavam encontrar com pobres em avião, daqui a pouco ficarão ainda mais enfurecidos por terem que dividir o banco do ônibus, da lotação ou da garupa da moto-táxi.
E vamos em frente, porque, se não formos, nos empurrarão ladeira abaixo. A esculhambação é geral no país da chacota e da pilantragem. Ah, sim... também da milícia empoderada!
Vai um cafezinho aí, (e)leitor?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Guerreiros de araque







Com os "defensores" de causas nobres e de grande estardalhaço, tenho algumas ressalvas. Muitas vezes, há os que defendem coisas maravilhosas à distância, mas desaparecem na hora de enfrentar uma questão importante local, como, por exemplo, um problema na rua, na casa ou no condomínio onde moram, um buraco na esquina, o farol que precisa ser colocado para evitar acidentes, uma criança que chora além do normal, um idoso que vive recluso, uma mulher que está sendo maltratada, um homossexual etc.

Ora, ser revolucionário de fachada, para mim, é “filhadaputagem”. Desculpem, mas é o que acho (e vejo muito disso por aí, infelizmente). Quem está disposto a brigar para melhorar o que de fato está errado tem que ter disponibilidade e coragem para causas de todos os tamanhos e tipos.

Há os guerreiros genuínos, claro. Porém o que mais se encontra é aquele que, para se sentir melhor do que realmente é, finge ser valente, “humano” e solidário com temas “midiáticos”. Agora, para assuntos mais próximos e também urgentes, nunca estão disponíveis, fogem, dão desculpas esfarrapadas, entram em pânico e se borram dos pés à cabeça.

Por isso, prefiro os ruins sinceros. Dos falsos bonzinhos (que se reproduzem pela internet numa velocidade espantosa), quero distância total. Já acreditei em alguns, não cairei mais nessa.

E antes que comecem a se manifestar os irônicos de plantão: não, não sou um bonzinho fajuto, mas também não sou um ruim hipócrita. Um exemplo de bondade, nunca fui, também nunca fingi ou quis ser santo. Mau? Cruel? Sim, de vez em quando, mas só com quem me provoca.

Fica o aviso!

domingo, 20 de janeiro de 2019

Glauber via longe






Eu gostaria de encontrar uma definição mais clara sobre “gente de bem”. Principalmente, depois das novas matérias sobre pessoas que se consideravam (ou ainda se consideram) “de bem” estarem agora envolvidas em feminicídios, outras agressões contra mulheres, negros, nordestinos, gays, crianças e idosos, também em casos de roubos, desvio de dinheiro público, pedofilia e todo tipo de barbaridade que elas próprias “condenavam” nas redes sociais, além de ajudarem a propagar notícias intencionalmente distorcidas sobre identidade de gênero, educação sexual nas escolas, feminismo, direitos humanos, cotas nas universidades etc. 

O cúmulo dessa ironia perversa é que os nazistas e os fascistas também se consideravam “gente de bem”. E até mais: “raça superior”. Os inquisidores: homens de Deus. Os césares mais sanguinários: divindades. 


Penso que se deva, antes da liberação das armas, definir muito bem o conceito de quem é “gente de bem” e quem é “criminoso disfarçado de santo”.


Será que a Polícia Federal terá condições de fazer sozinha essa triagem de quem é de “Deus e [quem é do] diabo na terra do sol”?



quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Sem mira, mas com lubrificante







Vamos ver agora como ficarão os bate-bocas no trânsito ou nas saídas dos estádios e das baladas (sem falar nas brigas domésticas, que já são violentas). O Estado acaba de assinar a "confissão" de que não tem a menor competência (nem vontade) de desarmar os bandidos. Daí, por pressão da indústria do armamento (cujo lucro é maior ou tão fabuloso quanto o do narcotráfico e do jogo - talvez os da fé e da prostituição estejam bem à frente nesta lista, mas...), libera o "salve-se quem puder".

Enfim, uma vez que será liberado o uso/porte de armas e como bandido está mais treinado no manuseio disso que para eles é instrumento de "trabalho" desde muito cedo, sugiro que os interessados comprem uma, mas arranquem logo a mira e tenham sempre lubrificante por perto; vai doer menos quando eles lhe enfiarem o revólver no...

Calma! Logo vão entender como a frase termina.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Dos achados e dos perdidos






Eu estava próximo ao Cemitério da Paz, aqui no Morumbi, quando duas senhoras, cheias de boas intenções, me abordaram de supetão:

“Jesus te ama, filho!”

No melhor do melhor de mim, devolvi a delicadeza:

“É? Que bom...”

Contentes com aquele meu espasmo de simpatia, elas se animaram e, revistas da religião delas em punho e versículos recitados com fervor, tentaram me convidar para um encontro de jovens:

“Tenho 51 anos...”, avisei.

“Mas é tão moço!”, uma delas disse admirada.

“Só de cara”, rebati.

A outra:

“Sou dez anos mais nova, e olhe só pra mim.”

Eu (não deveria ter dito, mas escapou):

“Muita igreja, talvez.”

Elas se entreolharam, riram contrariadas e, retomando a postura de recrutadoras de almas perdidas, ainda tentaram dar a última cartada:

“Temos que segurar na mão de Jesus, só o Cristo pode nos levar para o paraíso. Sabia que lá, no paraíso, vamos reencontrar todos os nossos amigos e parentes queridos?”

“Então é melhor eu ir para o inferno...”

“Credo!”, gritou a mais alta. 

“Não diga isso, filho!”, emendou a outra.

Por sorte, o sinal já estava fechando para os carros e abrindo para os pedestres. Aproveitei para finalizar:

“Já tô acostumado com o inferno e nesse paraíso aí não vai ter muita gente que conheci, não.”

Cruzei a rua. As duas mulheres ficaram do outro lado, olhando pra mim e cochichando. Evito, faço de tudo para fugir de situações desse tipo. Juro que não sou eu que corro atrás dessas histórias, elas é que me perseguem a todo instante pelas ruas.




terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Mapplethorpe para maiores



Michelangelo e outros grandes gênios ampliaram horizontes da percepção humana. Não foram tão amados assim em vida. Não tão assumido quanto o seu rival Leonardo da Vinci, Michelangelo também era homossexual e as excentricidades do artista eram toleradas pela sociedade da época graças ao seu extraordinário talento. Ele e outros mestres estavam fora do tempo e do espaço. “Michelangelo, já idoso, ‘enquanto príncipes e pontífices rivalizavam em ofertas’ para ele, se tornava cada vez mais ensimesmado e mais exigente consigo mesmo. Escrevia poemas, e em algumas cartas escritas se vê que ‘quanto mais subia na estima do mundo, mais amargo e intransigente se tornava.’ Era amado e temido ao mesmo tempo, pois tinha um temperamento forte e não perdoava ninguém, superior ou inferior.” (Leia mais em: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=206020)

O temperamental Robert Mapplethorpe, na minha humilde opinião de fã de fotografia, fez o mesmo com suas lentes e modelos. Pornográfico e degenerado, diziam e dizem até hoje os puritanos. Ora, como a história sempre nos mostra que a voz do povo NÃO É a voz desse deus cujo filho dizem ter nascido hoje e foi executado por decisão da maioria em voto direto, que se danem as opiniões medíocres e geralmente equivocadas dos hipócritas! 

Quando estive em março deste ano em Nova York, quis muito, mas não tive tempo de ir ao estúdio de Mapplethorpe. Se eu voltar lá, será o primeiro lugar da minha lista.

Agora, felizmente, parece que o filme sobre a vida dele virá para o Brasil em 2019. Espero que sim.

Aqui, o trailer (se não tiver mente e olhos abertos, não assista):







sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O prato nosso de cada dia




“Animal ou vegetal, um ser morreu em sacrifício para nos manter vivos. É esse o sentido maior de respeito e gratidão antes das refeições. Também a gratidão a todas as mãos que fizeram aquele alimento chegar até o seu prato.” Ouvi isso num documentário sobre religiões afros e fiquei pensando no que o sacerdote disse. Acredito que muitos também nunca pensaram nisso, porque sempre nos ensinaram a agradecer a Deus, o fulano lá de looooonge... 

Por isso, em algumas religiões, animais que servirão de alimento são mortos por especialistas, pessoas treinadas para aquele ato acontecer rápido e com o mínimo de sofrimento possível. Eles acreditam que, se o seu prato estiver com a dor e a agonia do animal, a comida não fará bem para o nosso corpo, nem para o espírito. Faz sentido. Porém em grande escala e com o lucro em primeiro lugar isso é impossível. Eu ainda consumo carne de grandes frigoríficos e outros itens de origem animal oferecidos por produtores gigantes. Estou muito longe dessa lucidez e evolução espiritual. Mas, quem sabe, um dia... 

Ainda menino, em uma fazenda de Uruguaiana, vi uma ovelha ser degolada para ser esquartejada e assada para o almoço de domingo. Tudo acontece muito rápido. Mas é difícil esquecer o olhar de pavor do bicho pendurado pelas patas traseiras. Algumas ainda estão agonizando quando já começaram a retirar a sua pele. Naquele almoço, não comi o churrasco. Depois, tentei não pensar mais na cena. Comprando em partes nos supermercados a gente finge que não sabe como tudo é feito. E muitos não sabem mesmo, nem querem saber... 

“Mas aqueles bichos são criados em cativeiro, não têm noção de nada”, é a justificativa que se ouve por aí.


Bem, se é assim, quando a ciência evoluir na área de transplantes etc., podemos criar humanos em cativeiro para abate e retirada de órgãos. Um clone de estimação, por exemplo, para que possamos arrancar e substituir os pedaços que falharem no nosso corpo. Ora, sem problemas. Afinal, eles foram criados ali para esse fim, não terão a menor noção de como é a vida lá fora.


Sem dúvida, é algo que vamos ter que rever com urgência. As religiões mais antigas já sabiam de tudo isso, mas foram “soterradas” pela nossa ganância. Predadores na natureza também abatem quase instantaneamente suas presas. É provável que eles também saibam que a dor deve ser evitada ao máximo. São mais evoluídos que nós por matarem apenas para saciar a fome, não para acumular cadáveres e negociá-los em pedaços, como nós fazemos (e cada vez em maior escala). 




segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Arte é coisa de vagabundo





Já enfrentei e assumi muitas coisas sem ter grandes transtornos, apesar de causar escândalo para alguns e inveja (?) para outros. No entanto, por incrível que pareça, demorei muito para me assumir como um criador (ou artista, tanto faz), talvez por causa de tudo que ouvi de negativo sobre essa atividade desde pequeno. E, ultimamente, tenho escutado e lido mais agressões contra esse meu legado (ou profissão, ainda que muitos digam que é "coisa de vagabundo"). 

Por coincidência, indo ontem ver o Paulo Gustavo no Tom Brasil, com o seu emblemático espetáculo MINHA MÃE É UMA PEÇA... casa lotada, três mil pessoas, 16 anos em cartaz e viajando pelo país... Bastava ele aparecer em cena, começavam os aplausos, os risos... Todo mundo feliz. O ator com uma forte gripe, tossia de vez em quando, mas também estava feliz e grato por tudo aquilo. No final, como ela estava nos bastidores, o artista chamou a sua mãe para cantarem juntos uma música de encerramento da apresentação. Lá estava a famosa mãe do Paulo Gustavo, afinadíssima, ajudando o filho a cantar, já que ele, por estar resfriado, não conseguia alcançar algumas notas. Amigos queridos nos deram de presente os ingressos e foram conosco. Um final de domingo para gargalhar e também, no meu caso, pensar mais um pouco sobre esse atual "levante" contra os artistas. Dia desses, li uma postagem, dessas com frases de efeito que vão sendo compartilhadas mais por compulsão do que por passarem/representarem uma ideia com a qual os "repassadores", de fato, se identifiquem ou concordem. Nela, era possível ler algo assim: "precisamos de engenheiros, professores, médicos etc., mas nunca de artistas".        

Pois bem, para quem acredita que arte é absolutamente dispensável, que se livre dela, ora! É "simples". Rasgue livros, desligue a televisão, tire os quadros das paredes, as estampas dos móveis e das roupas, não vá mais ao cabeleireiro fazer aquele corte da moda, deixe de ver filmes, também apague os afrescos das igrejas, arranque as imagens dos altares e, claro, pare de cantar hinos para louvar o seu deus e cantigas para ninar os seus filhos, netos... Também não use mais joias, nada disso que vem dos "famigerados e dispensáveis" artistas. Enfim, elimine a arte (seja ela qual for) e veja como ficará a sua vida. 

Mesmo em estado selvagem, animais se enfeitam ou produzem ninhos espetaculares, também emitem sons e fazem belas danças para o acasalamento. Arte é uma forma de transcender, sair do lugar-comum, enfrentar a morte, agradecer por estar vivo, demonstrar essa gratidão em forma de criações que vão ficar por aí como herança para os que virão. Por mais que tenha evoluído, arte ainda tem o mesmo significado (e importância) que os desenhos deixados nas cavernas: é um vestígio, sinal para futuros arqueólogos (ou exploradores vindos de outros planetas, se aqui já não existir mais vida humana). Sim, para esses "extraterrestres" é bem provável que a arte deixada tenha mais valor "científico" que todo o resto, por não ter "verdades" tão inconstantes quanto a engenharia, as escolas, a medicina etc.   

Agora, se você não gosta, tudo bem. Cada um que viva com o que lhe basta. Mas não venha aqui, ler, curtir e se fartar gratuitamente com os meus textos... e depois sair por aí, arrotando sua ira contra mim e os meus parceiros de estiva. 

Por favor, mais respeito!

Goste ou não, muitos de nós deixarão contribuições para a eternidade. E você, vai deixar o quê? Apenas rancor, recalque e ódio? Quem deixa esse tipo de “obra” para a posteridade são os tiranos. 

Queira ou não, tudo é arte. Só não vê e sente isso quem não quer (ou não pode). Se grande ou menor arte, isso é o de menos para o tempo. Afinal, um brinco de osso deixado por civilizações pré-históricas tem maior ou menor importância que uma partitura de Mozart? 

Pensemos. 




sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Andando em círculos






Domingo passado, ao rever na televisão o filme MEMÓRIAS DO CÁRCERE, baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, fiquei pensando o quanto a história se repere. É a tal “espiral do eterno retorno” proposta pelo filósofo Friedrich Nietzsche. Embora o filme não seja um dos melhores do Nelson e tenha envelhecido em termos estéticos e “dramáticos” (na interpretação dos atores), o roteiro mostra a Ação Integralista Brasileira (AIB) do período Vargas (uma ditadura sob o comando de um populista, que foi tema do meu Trabalho de Conclusão de Curso na faculdade de Relações Internacionais). 

Com o pavor (quase surreal) do comunismo disseminado nas multidões (que nem sabiam o que era comunismo) e pela moral e os bons costumes (defendido pelas famílias e igrejas), o Brasil mandava os descontentes (tidos como “inimigos da pátria”) para os calabouços. Houve perseguição, tortura e extermínio naquele período. Quando os Integralistas cansaram Getúlio com o seu “Anaê”,  grito de guerra que significa “você é meu irmão” (em tupi), foram dispersados e passaram a constar apenas nos livros de história. 

Em 1964, com novo golpe, militares (hoje se sabe que apoiados por Whashington) tomavam o poder com a mesma desculpa de “pela moral, pelos bons costumes e para afastar o comunismo”. Sim, a boa e velha desculpa de “comunismo”. Aliás, se não existisse o “comunismo”, não sei o que o seria dos movimentos de ultradireita. Talvez perdessem a força que a maioria das religiões tem ao pregar o “grande perigo” do pecado, do diabo, do inferno etc. Sem o fortalecimento do medo pelo desconhecido, multidões de fiéis se dissolveriam em pouco tempo. 

E hoje estão de volta o discurso de ódio, o puritanismo e a tão temível "invasão comunista". O “outro” também volta a ser “o degenerado”, “o comunista”, “a ameaça à família e aos bons costumes”. Os “bons e sãos” são agora como Integralistas repaginados pelos recursos da informática; suas ideias extremistas e medos infundados se espalham com maior velocidade e força de persuasão.     

Enfim, a história não é linear, como queremos e nos ensinam a acreditar que seja; ela se move em círculos num vaivém infinito. Nietzsche, internado em manicômio após um colapso mental, talvez sofresse de excesso de lucidez em um mundo programado para ser insano. Os desajustados somos nós que ainda acreditamos que a sociedade tem conserto. Não tem. Não pode ter. Há outros interesses em jogo que mantêm as engrenagens emperradas para que o poder de alguns se perpetue. 

Ou você ainda acredita que a saúde, a educação e a segurança voltarão a ser boas para todos algum dia, indistintamente, quando há centenas, milhares de empresas do setor privado que lucram fortunas com essa “deficiência” nas políticas públicas? 

Bom, se acredita, estará a salvo, pois continuará se entregando a promessas vãs e ameaças que nunca existiram de fato (pelo menos, não com a força que foi propagada). Os "sãos e bons" são os que não destoam. Se contestar a "ordem" imposta, irá para o calabouço, o hospício ou para a cova.

Gostemos ou não, é assim que tudo funciona.

   



sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Mais aviso que epitáfio






Tenho um livro sombrio de 2003 sobre a morte (sobre o “se deixar morrer” e “matar para realizar a vontade dos que querem morrer”), chamado O COVEIRO. É uma novela literária meio “trash”. Se tudo correr bem, este livro, junto com CAÇADORES NOTURNOS e mais o inédito ESCORPIÃO, que encerra a minha trilogia SUBTERRÂNEOS DO DESEJO... os três serão publicados em nova edição (revista) e edição inédita para ESCORPIÃO ainda este ano. Os dois primeiros, apenas em eBook (livro digital), o terceiro em edição convencional, mas limitada e numerada (para colecionador).

Será um derradeiro “desatino” da Editora Desatino, já que não há mais como distribuir livros físicos, nem pontos de venda.


Para mim, como autor, será ainda pior, pois me colocará em risco: os três títulos abordam o desejo e o sexo nas mais variadas formas. Sexo sempre será um tabu em um país que não consegue se olhar no espelho e ver como realmente é, não o que gostaria de ser (e muitos acreditam ser). Em vez de gozar livremente o desejo, falsos puritanos preferem fiscalizar o tesão alheio. O peso da culpa cria amarras, não deixa a pessoa viver plenamente. Essa repressão interior costuma ser devolvida ao “outro” em altas doses de ódio, rancor, inveja.


Nelson Rodrigues disse certa vez: “O que seria dos padres, se não existissem as feias?” Eu me atrevo a “atualizar” essa pergunta para: “O que seria da internet hoje, se as transas fossem muito boas para todos?”


Mas, voltando aos mortos de O COVEIRO...


Para escrever este livro, fiz vários passeios no Cemitério do Araçá (não tão bonito e rico quanto outros com túmulos e esculturas magníficas, como este da foto, mas creio que é o único que tem uma bela visão panorâmica de São Paulo). Lá estão os anônimos e também os famosos, como Cacilda Becker, Nair Bello (na época de produção do livro, ela ainda estava viva) e outros que já não me lembro. Sinceramente, cemitérios me trazem paz, fico calmo e mais criativo que em outros lugares. É inspirador passear pelos corredores, ver fotos e ler epitáfios. Cada foto é uma história diferente, com início, meio e fim. Mas gosto mesmo é de visitar túmulos de gente que não conheci. Sei lá, acho que, com o passar dos anos, fica estranho. Quando temos mais gente conhecida e amiga sepultada do que nas ruas, bate uma sensação de que a nossa história começou a se apagar; não há mais testemunhas daquilo que vivemos.


Bom, em alguns casos, é melhor nem ter mais testemunhas de certos “deslizes” na nossa biografia. A criatura que ainda podia nos fazer algum tipo de “chantagem”... já foi! Ufa, menos um!


Preciso fazer aqui uma pausa para “ilustrar” essa questão de já termos mais gente nossa enterrada do que viva... Meu pai costuma dizer que, ultimamente, com mais de oitenta anos, para não ser surpreendido, ao encontrar um amigo na rua já vai logo beliscando para perguntar:


“Bah, tchê, tu estás vivo mesmo ou eu já morri também?”


Ainda sobre as fotos... Admito que é a parte do passeio que mais me atrai. Fico intrigado com a escolha que o familiar fez. Há alguns que morreram com trezentos anos, mas a foto é da fase jovem. Será que foi por imposição do morto? “Se colocarem a minha foto de velho, ninguém vai receber um centavo de herança!” Também há os lindos e as lindas. Sim, os novos são mais sortudos; morrem ainda bonitos e viçosos. É claro que há também os feios. Esses são os que me deixam mais confuso. Será que não dava para melhorar a foto ou foi de maldade mesmo que algum parente desalmado fez aquilo com o morto para expor e eternizar a feiura dele? Em vez de homenagem, seria uma vingancinha póstuma?


Não, a gente não vai saber nunca a resposta. Cada foto de morto é uma espécie de esfinge para curiosos incorrigíveis (como eu).


Gabriel García Marquéz escreveu em MEMÓRIAS DE MINHAS PUTAS TRISTES, seu belo e, ao mesmo tempo, melancólico romance de despedida da literatura, que uma pessoa só pertence a um lugar quando enterrar seus mortos nele. Não sou de São Paulo, vim de longe, mas já enterrei alguns mortos “meus” aqui. Então já sou daqui. Sou e não sou só daqui, porque também tenho mortos meus em outros lugares. Andarilho de nascença, é natural que eu tenha deixado outros mortos por onde passei. No fundo, como diz o Ramiro da minha novela literária, todos nós somos coveiros: dos outros e de nós mesmos. Como túmulos ambulantes, vamos carregando os nossos mortos por aí, até finalmente nos juntarmos a eles.


Com isso em mente, quando fui fotografar para a capa da nova edição de O COVEIRO (que, no fim, nem será utilizada) brinquei com o rapaz (um coveiro de verdade) que, a pedido da administradora do cemitério, me acompanhava pelas alamedas floridas e perfumadas do Araçá:


“Na minha lápide, se houver uma, quero que não escrevam essas frases piegas de saudades eternas da família, nem de que o morto foi muito melhor do que ele realmente era, mas apenas: ‘ESTEVE AQUI QUEM AQUI NUNCA ESTEVE DE FATO’. Os que me conheceram de verdade e aguentaram as minhas esquisitices vão entender esse meu último recado (e não aparecerão tão cedo para me visitar).”


Enfim...


Feliz dia dos mortos para os que já morreram e para os que ainda estão vivos! Os vivos, ultimamente, andam precisando mais dessa felicidade do que os finados.


No mais, caro(a) leitor(a), deixe flores para os seus queridos defuntos, depois volte lá para aquela sua vidinha sem graça e tente dar uma bela e necessária sacudida nela, antes que seja tarde, se é que já não é!


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Crédito da foto do Cemitério São Paulo: “De Alfredo Oliani, destaca-se o conjunto escultórico ‘Último adeus’, considerada uma das obras mais instigantes da arte cemiterial na cidade de São Paulo. A obra foi encomendada por Maria Cantarella, por ocasião da morte do marido, Antônio. Representa um homem no vigor da idade inclinando-se sobre a esposa morta, em um apaixonado beijo de despedida. Oliani buscou atender ao pedido da viúva, de uma escultura que celebrasse abertamente o seu amor pelo marido, reconhecendo-o como vivo em sua memória e a ela mesma morta, sem a sua companhia.” (Wikipédia)



sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O país que fingimos não ver



“Em pouco tempo descobri que os dias só iam passando para os que estavam do outro lado das grades da Febem. Tudo estanca quando se está enjaulado. Às vezes eu pensava que meu único e maior delito tinha sido ficar ali, paradão, esperando que tijolos fossem empilhados e muros se agigantassem em volta do que restava da minha infância. Era como se eu, por livre e espontânea vontade, tivesse me deixado devorar por aquele útero de cimento, grades de ferro e arame farpado, que fora construído de modo estratégico para dissolver o que ainda restava da minha ingenuidade de pivete de rua. Nesse sentido, a Febem era uma excelente escola. Lá dentro a gente aprendia na marra que, para se manter boa e inabalável, a sociedade precisa produzir em séries intermináveis a culpa e os futuros criminosos. Sem os marginais o mundo perderia suas máscaras. A Febem era uma fábrica de culpados.”

[...]

“Dia sim, dia não, quando consigo descolar uns trocos nas esquinas, compro algumas latas de tinta e saio por aí rabiscando desenhos e escrevendo estas memórias, que são minhas e também de muitos outros iguais a mim. Uma palavrinha deixada às pressas aqui, outra mais adiante. Frases soltas e certamente mal escritas que eu, bem no fundo, sei que jamais serão lidas. Ou ainda: talvez tudo isso seja mera ilusão... E se aquele tiro me pegou mesmo pelas costas, lá na calçada, quando eu fugia dos manos? Ora, se estou morto, então todo o resto foi e ainda é apenas um delírio, um sonho bom que veio pra me salvar do medo, da dor, do desperdício de ter vivido tão pouco. Mas como saber se ainda estou vivo ou se já morri, se todos nas calçadas continuam olhando pra minha cara de fome e pros meus trapos sujos e não enxergam nada?”

(Dois trechos do meu romance juvenil MEMÓRIAS DO ASFALTO, lançado pela Desatino em 2007. Temas e discussões ainda atuais. Infelizmente, talvez nunca saiam dos noticiários do Brasil.)


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Salve-se quem puder (ou souber atirar)





Os da geração dos meus pais costumavam ter armas de fogo em casa. Naquele tempo, como dizem, a violência urbana não era tão assustadora quanto hoje e a educação (principalmente, a pública) tinha qualidade. Tios, vizinhos, amigos das famílias possuíam armas de fogo em casa. Era muito comum ter arma em casa (legalizada ou não). Também, naquele tempo, não havia tanto uso de drogas ilícitas. Ah, sim, o consumo de álcool também era comum. Nos lares, também era comum pais exagerarem nos tragos e, cheios de “razão”, voltarem para casa com arma em punho para infernizar esposa e filhos. Mas essas tragédias familiares, embora bem conhecidas, eram veladas, ninguém se atrevia a intervir. Não se denunciava, muitos cresciam com isso, calados, cheios de traumas. Outros, infelizmente, nem cresciam. Sim, também era bem comum as crianças terem revólveres, pistolas, espingardas e metralhadoras de brinquedo.   

Daí veio a proibição de armas de fogo (reais ou de brinquedo) e de outras drogas que foram surgindo (cara geração tem as suas válvulas de escape, sempre foi assim). E a educação (principalmente, a pública) foi se deteriorando. Nisso, pais, talvez mais “amorosos”, mas cada vez menos comprometidos com o ofício de educar seus filhos, passaram a culpar a escola pela falência da educação. A escola pôs a culpa no governo. Conservadores e fanáticos religiosos demonizaram a televisão. E assim por diante. Porém ninguém ainda pôs a mão na consciência para fazer o “mea culpa”.

O resultado: cadeias abarrotadas e escolas entediantes, vazias. Cadeia, a princípio, seria para corrigir, tentar ressocializar os “desgarrados”. Mas não, foi transformada em depósito de rejeitados, “universidade” para aprimorar bandidos. Escolas? Elas perderam a graça, não sabem mais como manter a atenção e o interesse dos alunos. 

Bem, se chegamos a esse ponto, é melhor que o discurso (para ser menos distorcido e hipócrita) seja: “Sim, falhamos enquanto sociedade e não tem mais volta; o melhor é entregar uma pistola para cada um cuidar de si. Os melhores atiradores sobreviverão.”

Mas que “melhores” serão esses? Sinceramente, não sei se quero estar lá, na outra ponta, entre esses “melhores”; não me vejo na pele de alguém com o "direito" de matar uma pessoa. Ainda que por defesa ou acidente, quem mata ou matou carregará um cadáver nas costas para sempre. Nunca consegui concordar nem mesmo com caça a animais. Sim, talvez eu esteja fora de contexto e seja agora uma pessoa “antiquada”, já fora dos atuais catálogos sociais urbanos que, usados nos tempos da barbárie, voltaram a ditar as “novas” regras de comportamento (e de sobrevivência).

Um parêntese: Da minha adolescência, lembro de um colega nosso de escola, filho de uma querida professora, cuja família tinha arma de fogo em casa. Um dia, essa família recebeu a notícia de que aquele nosso colega tinha estourado os miolos. E ele havia feito isso com a arma que a sua família tinha em casa. Claro, mesmo que não tivesse arma de fogo ao alcance da mão, o jovem teria buscado outra forma de morrer. Quem quer mesmo se matar, sempre encontra um jeito. Mas foi com a arma que estava em casa que ele cometeu o suicídio. Imagino que aquela família jamais esqueceu a tragédia e talvez se culpe por ter "facilitado" a morte de alguém tão amado. É bom pensar nisso antes de sair por aí, defendendo o porte de armas e pensando que a bala só atingirá o "inimigo". Não, a história pode ser outra.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Dicas básicas para uma vida a dois



A vida de um casal (qualquer tipo de casal) talvez possa ser resumida em:

Bodas de Atração
Bodas de Sedução
Bodas de Conquista
Bodas de Desejo
Bodas de Compartilhamento
Bodas de Resignação (ou Resiliência)
Bodas de Cárcere
Bodas de Tédio
e
Bodas de Separação (ou, no extremo, de Sangue)

Por causa dessa última fase (às vezes, difícil de ser evitada) é que sou contra a qualquer tipo de arma em casa. Facas e garfos, somente de plástico. Vidros, loucas e afins, nem pensar. Baratas? Danem-se as baratas e os ratos! É melhor se acostumar com eles do que ter veneno em casa. Dormir: em quartos separados (trancando bem a porta). Também é aconselhável o casal não morar em andares muito altos e passear apenas em lugares públicos (de preferência, com muita gente em volta e um posto policial por perto). Que me perdoem os iniciantes e os românticos, mas é assim mesmo. O.k., não vou ser tão pessimista. É claro que não é assim com todos os casais. Apenas com quase todos. Melhorou?


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Livro caro





Ontem, durante uma ótima entrevista no Conversa com Bial, um importante editor explicou que o livro perdeu o sentido de valor, e que isso é um dos principais fatores da eterna falta de leitores no país (realidade diferente da de outras partes da América Latina). Aqui, por exemplo, para ir ao cinema (hoje, quase todos em shoppings ou bem distantes de casa) é preciso pagar, além do ingresso, também o valor do estacionamento (ou da locomoção). Aquele passeio, ou aquela diversão, durará, no máximo, duas horas. Pelo mesmo (ou até menor) valor, compra-se um bom livro e a leitura demandará dias, semana(s), até mais tempo.

Estudantes universitários também usam a mesma desculpa para justificar as cópias feitas durante os cursos de graduação: "Livro devia ser mais barato".

Certa vez, num bate-papo com professores e estudantes em uma conhecida faculdade de São Paulo, rebati essa "argumentação", dizendo:

"Pelo visto, quase todos aqui vêm de escolas particulares. Durante os ensinos fundamental e médio, os pais de vocês foram obrigados a comprar material escolar e toda aquela pilha de livros que, no final do ano, não serviriam para mais nada. No entanto, agora, quando vocês teriam que investir em obras que formarão a biblioteca imprescindível para o exercício da profissão que escolheram para o resto da vida, preferem ir para o boteco beber cerveja nos finais de semana. Em vez de comprar livros, fazem cópias de capítulos. Em vez de ler a obra inteira, leem trechos para as provas  muitas vezes, infelizmente, incentivados pelos próprios professores. Eu, sendo franco, quero ser atendido por um médico que não se formou lendo trechos de medicina, porque não terei uma doença pela metade e precisarei de um tratamento completo para poder me curar. E assim por diante com advogados, engenheiros etc." *

Riram do que eu disse. Constrangidos, mas riram, sim.

Pois é... Quando um povo acha que o livro é caro demais e que o boteco vale mais a pena do que ler, qual futuro terá?

* Não vou ser hipócrita; também copiei livros na faculdade. Mas os principais, comprei. Sem grana e desempregado na época, não sei como consegui, mas comprei, sim (ou peguei emprestado na biblioteca). Os capítulos lidos em cópias sempre me deixavam frustrado; a informação contida naquela obra (e o pensamento do autor) não se completava. Mais adiante, sempre que possível, comprei a obra completa e li – até mesmo para poder editar outros autores que utilizaram aquelas referências bibliográficas.


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Genet, o profeta maldito



Era 1969, e o teatro paulistano apresentava uma missa profana em plena ditadura militar. O texto, do arredio Jean Genet: "O balcão". Direção lúdica e futurista do franco-argentino Victor Garcia. Na produção e em cena: Ruth Escobar. Ela teve que "implodir" palco e plateia do seu teatro na Rua dos Ingleses para dar espaço à montagem deste argentino genial (e tbém "insano", no melhor sentido da palavra). A confecção/concepção dos cenários foi de Wladimir Pereira Cardoso. No elenco, dezenas de atores (alguns que se consagrariam mais tarde, como Célia Helena, Jofre Soares, Lilian Lemmertz, Ney Latorraca, Paulo César Pereio, Raul Cortez, Carlos Augusto Strazzer e Teresa Rachel, entre outros). 
Um grande bordel com arquétipos do poder: bispo, chefe de polícia, general, rebeldes etc. Visto dos bastidores, o poder é um grande cabaré, um palácio para realizar sonhos impossíveis e satisfazer desejos mundanos. Sempre foi assim, nunca mudará.
O povo, nessa montagem a plateia assistia a tudo em vários andares/ângulos, foi transformado em "voyeur", aquele que espia, se comove, se excita e, de vez em quando, se revolta (porém raramente interfere para mudar a "trama"; precisa da cena como ela é para poder continuar incógnito no seu sofrimento ou deleite). No bordel/poder, todas as personagens têm que representar muito bem os seus papéis. Assim, as engrenagens, dentro e fora do sistema, funcionam perfeitamente.  

"O JUIZ [ao carrasco e à puta que faz o papel da ladra] - Bem. Até agora tudo bem. Meu carrasco espancou com força... pois também ele tem sua função. Estamos ligados: você, ele e eu. Por exemplo, se ele não espancasse, como é que eu poderia impedi-lo de espancar? Portanto, deve bater para que eu intervenha e prove minha autoridade. E você, deve negar para que ele bata cada vez com mais força."

As interpretações do elenco da época podem parecer exageradas (para os padrões atuais), mas a encenação continua beeeeem à frente daquele tempo e, principalmente, dos dias de hoje. 
Ver imagens como estas chega a me dar vergonha por termos voltado às cavernas (social, cultural e politicamente).
Sempre quis ver a montagem. Agora, pelo menos, vinte e poucos minutos estão disponíveis neste link: