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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Pois é...





“Este ano passou voando, não?”

“E agora começa toda essa palhaçada de fim de ano...”


“Pois é... Mas que bom que passou rápido, porque 2017, pra mim e pra todo mundo, foi uma bosta.”


“Qual a novidade nisso? Tenho 83 anos, e sei que o Brasil sempre foi uma bosta. De vez em quando, enfeitam a coisa. Mas não adianta; bosta é bosta. O povo não tem memória, fala um monte de besteira por aí. E a gente se ilude porque é burro, mesmo.”


“Credo, não é bem assim...”


“Não? Primeiro, vieram os das caravelas: pra roubar e matar os índios. Mais adiante, a corte, a república... Todos só queriam meter a mão no que podiam. Aí, vieram os milicos, que meteram a mão na cara e nos bolsos de todo mundo, só que ninguém podia abrir o bico para reclamar. Deixaram um rombo, uma inflação absurda e um país atrasado. E agora apareceram esses outros safados. Metem até Deus no meio para ver se ganham um pouco de credibilidade. Pilantras. Todos fazem a mesma escola. Sempre foi assim.” 


"Pois é...”


Essa foi a melhor conversa que ouvi nos últimos tempos, ali, na fila dos Correios, quando duas idosas tentavam inutilmente quebrar a monotonia em uma agência abarrotada de clientes carrancudos que não desviavam os olhos dos celulares.



domingo, 26 de novembro de 2017

Bateu, levou!




Aqui, estudando os orixás para poder elaborar o “esqueleto” de um novo texto, pesquisei sobre Xangô, que é um arquétipo da justiça, dos raios e do fogo. Carrega um machado duplo (afiado nos dois lados). Dado ao prazer, teve três esposas: Iansã, Oxum e Obá. Por mais que pareça autoritário e implacável, é extremamente justo. Odeia a falsidade e a mentira. Quem invoca (ou se mete com) essa força da natureza precisa estar atento à lei do retorno. Aquele que comete alguma injustiça ou pede justiça sem merecê-la, da mesma forma que usa o machado de Xangô para prejudicar alguém, receberá de volta outro golpe ainda pior, direta ou indiretamente (por meio de seus familiares etc.). 

Não sou profundo conhecedor de mitologia africana, porém noto muita correspondência com os deuses egípcios, gregos, romanos e celtas. No fundo, é sempre o homem tentando explicar/justificar suas forças internas (força natural “versus” freios da consciência). 

No catolicismo também há essa semelhança. Por exemplo, quando é atribuído a cada santo um tipo de “área de atuação”. Por isso, dizem os estudiosos que não há religião monoteísta, já que as que se consideram seguidoras do “deus único” também admitem a existência do diabo, a divindade que está sempre em combate com o seu maior inimigo: deus. O diabo seria um filho rebelde e desnaturado ou a outra face de deus? Não há resposta. 

O que mais me seduz nas mitologias é o fato de os deuses estarem próximos das limitações humanas; não são imaculados, nem inatingíveis. Estudar as mitologias é olhar para dentro (para encarar os nossos próprios abismos), não para o céu (um paraíso inalcançável). 

Deixando o meu ceticismo espiritual à parte, acredito, sim, na lei do retorno (pregada em todas as religiões e crenças). Aliás, mais que acreditar, sou testemunha disso. Aos 50 anos, já vi muita coisa, conheço bem o "roteiro" de quase todos os "filmes". Xangô, na minha visão, seria a nossa consciência; não tem juiz mais atento e austero que ela. 

Como diz o ditado: “Aqui se faz, aqui se paga”. Este será o mote do meu novo trabalho. Não pelo lado moralista/civilizatório/religioso, mas somente tendo a consciência como foco principal da narrativa e da trama.

Bora lá, para a minha estiva! Hoje é domingo? Pois é, para alguns... Ficcionista não tem folga. 



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Romance perdido




Faz tempo isso... Era final dos anos 1980. Numa tarde, eu estava na sala do apartamento do Caio Fernando Abreu, na rua Haddock Lobo(se não me falha a memória), enquanto ele terminava o último capítulo do romance Onde andará Dulce Veiga?. Naquela época, os textos ainda eram datilografados. Não havia muitos computadores nas casas. Para ter uma segunda via de um texto, ou o autor ia até a loja de fotocópias mais próxima ou usava papel carbono.

Lá pelas tantas, o interfone tocou... e subiu o office boy da editora. Caio colocou os originais em um envelope e entregou o novo livro a ele. 


Aquilo me deixou assustado. 


"Mas você não vai ficar com uma cópia?", perguntei. 


Ele respondeu tranquilamente que "não"; não havia necessidade, já que o livro seria publicado... e ele teria muitas cópias daquela história.


Meu lado exagerado e trágico falou mais alto:


"E se o cara for roubado ou sofrer um acidente e as páginas se espalharem por aí?"


Depois de rir balançando a cabeça, Caio deu uma funda tragada no cigarro (fumava muito, um depois do outro) e disse com uma calma que me deixou ainda mais perplexo:


"Se as folhas do livro forem levadas por um ladr
ão ou pelo vento, paciência; há romances que nascem perdidos, não acha?"


Caio tinha essas frases... E até hoje, por andar sem fôlego e engavetar muitas histórias, penso nisso que ele me disse: há, sim, textos/sentimentos que nascem anêmicos, sem força, desanimados. A verdade é que semente sem terra boa não vinga. Infelizmente, agora não temos uma sociedade disposta a ler, ver peças, bons filmes... Quando a crise bate, a arte é a primeira coisa a ser deixada de lado. Pior: artistas são demonizados, perseguidos, eliminados.


Vamos ver até quando isso vai durar.


Por enquanto, o silêncio pode dizer mais que muitas palavras.


Obs.: Bem depois daquele meu encontro com o Caio, outro amigo (que, aliás, me apresentou ao escritor) levou o romance para as telonas. Em 2008, Guilherme de Almeida Prado dirigiu Onde andará Dulce Veiga?. Caio já tinha nos deixado em 1996. Talvez ele tenha se enganado: nem todo "romance" (desejo?) se perde para sempre. A vida tem seus caprichos. Cedo ou tarde, a terra se renova e as sementes descartadas voltam a germinar como se nada tivesse acontecido. A pressa é sempre dos homens, não da natureza.  





sexta-feira, 27 de outubro de 2017

País falido vende tudo






Temos dois países: o BraZil (dos que acham que fazem parte do primeiro mundo) e o BraSil (dos que sentem na pele a realidade como ela é). 

Sendo civilizada, toda a discussão/reivindicação é válida e bem-vinda, mas não pode pender somente para um lado e servir de “manto midiático” para desviar a atenção (ocultando, assim, as falcatruas e negociatas que estão destruindo o país). 

Ah, é verdade... Esqueci de falar do Bra$il... Sim, tem esse também, mas já foi quase totalmente vendido por preço de banana. Não resta muita coisa. Agora, vão vender o pré-sal para os estrangeiros. Pois que vendam toda essa porcaria de petróleo de uma vez! Era isso que os estrangeiros tanto queriam. Que levem; já fizeram o estrago que podiam ter feito no país. No planeta inteiro, onde há petróleo, houve exploração, guerra e/ou miséria. É um “tesouro” maldito. Assim como outros: ouro, pedras preciosas, minerais... 

Anotem aí: A próxima grande disputa mundial será por recursos hídricos. O Brasil já foi mapeado por grandes multinacionais interessadas em privatizar a água doce (principalmente, as nascentes). E vão conseguir isso, porque já provamos que também somos incompetentes nessa área de manutenção/conservação dos nossos rios, lagos etc.

Como já nos “aconselhavam” no início dos anos 1980 a durona Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand: ora, se não somos competentes para administrar o país, temos que começar a abrir mão das nossas riquezas e do nosso terrirório.

“Em 1983, a então premiê britânica Margareth Thatcher compactuou com os rumores de internacionalização de parte do território brasileiro, ao declarar: ‘Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas externas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas’. Alguns anos depois, o presidente francês, François Mitterrand, fez coro: ‘O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia’.” (Revista Superinteressante, https://super.abril.com.br/ideias/os-gringos-querem-a-amazonia/#) 

Os dois receberam muitas críticas na época por terem feito tais declarações. Mas hoje vemos que tinham razão. Imaturos e irresponsáveis, precisamos de “tutores”, como acontece com os incapazes que herdam grandes fortunas – e, apesar de tutelados, acabam perdendo tudo e/ou se tornam escravos da riqueza que eles não sabem cuidar. 





quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Muy niños, pero más libres




Domingo passado, assistimos a este filme argentino: Esteros, rodado em Passo de los Libres (fronteira com Uruguaiana, minha terra natal). É muito singelo, tão puro e simples como as melhores lembranças que a gente tem da puberdade/adolescência. Óbvio, se tivesse sido uma produção brasileira, seria hoje apedrejado pelos moralistas de plantão. Diriam que é propaganda de sexo entre menores, incentivo à homossexualidade, filme para excitar pedófilos, enfim, toda aquela ladainha da indústria do pecado – aliás, cada vez mais próspera.

Ora, mesmo que platônico e/ou sem sexo, quem não teve uma primeira paixão nessa idade? Quem não deu aquele beijinho escondido? Quem não brincou de médico? Quem, lá dos Pampas, já não tomou banho de açude? Eu tomei até pelado, claro. Era muito bom. Ah, é verdade... tinha o problema das sanguessugas. Tive sorte; nunca vieram em mim. Nem elas me quiseram...

Esteros está disponível na NET.

Para os parentes e amigos da fronteira, esse filme vai tocar no coração de modo mais intenso. Ir para Libres era um passeio obrigatório para todos nós. Comprar patins, então, o sonho da maioria da minha geração. Embora mostrem poucas cenas em plano geral, dá para ver um pouquinho da cidade. Aparece até o carnaval dos correntinos. Houve um tempo em que o carnaval de rua deles era tão bom quanto o de Uruguaiana, que é famoso (às vezes, até superava o nosso). Lança-perfume à vontade (que já era proibido no Brasil).

É, o Brasil e os seus freios! 

Se proibição desse algum resultado positivo, seríamos uma potência imbatível. 

Mas, voltando... Como eu disse, o filme e a trama são bem simples (quase clichê de romance proibido). As imagens vão pegar mais na nossa memória...

Tem participação de atores brasileiros.


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Por que uso um sobrenome e não outro?




Algumas pessoas (do Sul, principalmente) costumam me perguntar isso. 

Vamos lá... 

Com pouco mais de 19 anos, quando escrevi para cinema pela primeira vez (e meu nome teria que ir para os créditos de “argumento e roteiro”), o diretor me disse que ”Felipe Tavares” ou “Felipe Freitas” eram uma porcaria para cinema. “João”, eu mesmo não queria, porque nunca me identifiquei com esse primeiro nome. Aliás, não gosto de nomes compostos. Daí, já sem muita paciência, ele esbravejou:

“Deixe de frescura! Esse nome de batismo serve para médico, advogado, professor, qualquer outra coisa, mas não é forte para artista.”

E discutimos quase uma madrugada inteira (sim, esse diretor só trabalhava das 21h até as 6h do dia seguinte). E só via o sol nesse primeiro momento da manhã. Depois dormia. Acordava à noite. Era um vampiro.

Então adotei um dos sobrenomes da minha avó paterna, Isabel.

Para facilitar, aqui vai um pouquinho da minha árvore genealógica (apenas sobrenomes para evitar “clonagens” de documentos):

Avós por parte de mãe: Fioravanti, era o sobrenome da minha avó; Freitas, do meu avô.

Avós por parte de pai: Greco era o sobrenome da mina avó; Nunes Tavares, os do meu avô.

Deles, vieram meus pais e meu sobrenome de registro: “de Freitas Tavares”.

Minha avó por parte de pai era surda, vivia em um mundo que era só dela (e isso me fascinava). Ralhava comigo por eu comer muito limão. Não chupava, comia com casca e tudo mais de dez limões cada vez que ia visitá-la. "Vai ficar azedo, guri!", ela dizia. Bobagem: azedo eu já era. E meu pai, como já contei em outra publicação, chegou a projetar filmes em Uruguaiana quando eu era bem pequeno. Mais tarde, quando passei a escrever roteiros, de alguma forma, o círculo se fechava, porque eu adorava mexer nos projetores e filmes que o pai trazia para casa. Sem dúvida, é uma das lembranças mais doces que trago daqueles tempos de guri. E não tenho muitas, não. Detestava ser criança. Aquilo de todos mandarem em mim era um porre. Lamento, mas não gostei de ser criança, não. Acho que já nasci velho, rabugento e “general” de mim mesmo. Receber ordem de alguém nunca deu certo, porque não tem “chefe” pior que eu mesmo: cobro de mim mais do que qualquer outra pessoa conseguiria.

Não sei por qual motivo não foi adicionado o sobrenome “Greco” na certidão de nascimento do meu pai. Acho que nem ele sabe explicar direito.

Meu nome, com todos os sobrenomes, seria: “João Felipe Fioravanti de Freitas Greco Tavares”.

Eu adoraria ter esse nome pomposo, mas me registraram apenas como: “João Felipe de Freitas Tavares”. O primeiro nome foi por eu ter nascido num comecinho de noite de São João. O diretor tinha razão: podia ser bonito, imponente, mas não era um nome artístico.


De qualquer maneira, por me dar bem com a minha "vó" Isabel, adotei “Greco” para que o diretor parasse de me atormentar.


Mesmo assim, sem me avisar, ele mandou colocar nos créditos de abertura do primeiro filme: Felipe Grecco. Sim, com duplo “cê”. Quando vi, levei um susto. Mas ele se justificou:


“O filme vai para o exterior; fica melhor o Greco com dois ‘cês’”


Passada essa época do cinema, na primeira publicação, cortei um “cê”... e segui com este pseudônimo literário: “Felipe Greco”, que já tem até uma linha no dicionário mais utilizado na internet: 


https://pt.wikipedia.org/wiki/Felipe_Greco 

Esclareci tudo isso, porque, dias atrás, um jovem cineasta e também pesquisador de cinema me procurou para saber se eu tinha escrito esses filmes “trashs” na Boca do Lixo nos anos 1980/1990. Sim, fui eu.

Tá explicado?

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Histeria coletiva




Dia desses, uma montagem feita com a embalagem do queijo Polenguinho para homenagear/reverenciar o álbum The dark side of the Moon (na minha opinião, um dos melhores) do Pink Floyd, causou revolta nas redes, pois foi recebida como uma apologia da homossexualidade, um desrespeito às famílias e toda aquela ladainha de quem está se deixando guiar mais pelo coração do que pela pela mente.

Essa “febre” de alguns mais fanáticos que satanizam as discussões sobre identidade de gênero é tão séria, que daqui a pouco fiéis serão proibidos de olhar para o céu quando surgir um arco-íris. O que é um belo espetáculo da natureza passará a ser “obra do demônio querendo impor ao mundo uma ditadura gay”.

Ah, pare com isso, amigo!

Uma coisa é não concordar, não gostar, não entender etc., outra bem diferente é arranjar desculpa para transferir aos outros um problema que, na verdade, é seu. Cada um tem o seu próprio desejo. Ou melhor: a sua própria vida. Cuide apenas da sua. Se não tem, arranje uma. Ou, no mínimo, leia melhor os livros sagrados (seja qual for a sua religião ou crença). Copiados de forma tendenciosa ou não ao longo dos séculos, os que são considerados grandes profetas aparecem nos livros sagrados pregando o amor, não a guerra. Os falsos profetas é que precisam pregar a ideia de pecado para poder vender o perdão. Sem culpa, sem medo do inferno e outras amarras inventadas para engessar os impulsos naturais do homem... igrejas, templos & afins ficarão às moscas.

Cuide da própria vida, que suas chances de felicidade e paz interior aumentarão – e muito!


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A cruz ou a espada?



Se o ensino particular, os convênios de saúde e os serviços de segurança lucram muiiiiiito com a precariedade dessas áreas, qual governo seria capaz de melhorar isso? Como enfrentaria o interesse dos empresários que ganham fortunas com tais “problemas sociais”? Será que a elite financeira gostaria mesmo que seus herdeiros frequentassem escolas públicas de boa qualidade ou seus membros entrariam tranquilamente em filas de postos de saúde com ótimo atendimento? Ora, se até em avião, que, caindo, todos morrerão igualmente, há vários espaços delimitados conforme a quantidade de dinheiro que os passageiros trazem no bolso (ou já de berço), talvez as escolas e os postos de saúde de excelente qualidade também criem separações, tipo: classe A, B... Z.

É ingenuidade acreditar que este ou aquele governo poderá mudar os poderosos mecanismos criados há séculos para manter a casa grande bem distante/separada da senzala. A madame pode até (por compaixão, altruísmo, fingimento etc.) batizar o filho da empregada, mas daí a trazê-lo para a mesa da família na ceia de Natal ou incluí-lo no testamento com os mesmos direitos dos seus filhos... isso é raro.


É nessa “esperança” (quase infantil) que os aproveitadores de plantão jogam sementes falsas e espalham soluções mágicas. Os mais afoitos caem facilmente na armadilha.


Nosso analfabetismo funcional e político, mais que um “problema social”, é uma estratégia de poder muito antiga. Vem desde que os primeiros colonizadores colocaram seus pés aqui e forçaram os nativos a entregar a sua terra (e tudo o que havia nela). Ah, não esqueçam que a cruz veio junto. Sempre a “fé” vem a tiracolo para ajudar a legitimar as invasões. Quando alguém diz “estamos fazendo isso em nome de Deus”, pronto: acaba a discussão... e estamos ferrados. Com “Deus” não tem como discutir. Nunca teve, por piores que sejam os seus “desígnios”. O mais curioso é que os castigos “divinos” sempre têm maior peso para o lado dos mais fracos e/ou daqueles que se dão conta de que tudo isso é uma grande farsa para nos manter no cabresto.



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

$$$ jogado no lixo


Ontem, depois de receber mais um comunicado de aumento abusivo na tarifa de uma das contas bancárias (por ser empreendedor, sou forçado a ter, além da conta pessoal, mais duas em agências distintas), liguei para a gerente de pessoa jurídica do Itaú:
— Mais um aumento? — perguntei indignado.
— Não posso fazer nada, senhor? Sua tarifa já estava defasada.  
— Como defasada, se aumentou em janeiro? Eu já pagava, em média, sessenta e poucos por conta. Agora vai para quase cem reais? Qual a justificativa? Sem falar que me ofereceram crédito especial para a empresa, depois me cobraram trimestralidades de quase trezentos reais, além das tarifas mensais e os juros. Ou seja: oferecem o “presente”, mas a cobrança vai junto, é isso?
— É o custo pelos serviços, senhor...
— Quais serviços? Não uso agências, nem cheques... apenas o cartão e faço pagamentos pela internet... Muito raramente, quando vou direto à agência, não há mais ninguém por lá, somente um ou dois gerentes, três funcionários nos caixas e máquinas.  
— Há um custo para o banco... Manter os serviços gera despesas.
— Quando você vai ao açougue, à loja ou ao posto de gasolina, lá há uma taxa mensal só para manter os serviços disponíveis para o cliente? E em lojas virtuais, você paga mensalmente para ser cliente?
Silêncio. Insisti:
— No seu salão de beleza, os serviços não estão lá, sempre disponíveis?
— Não entendi, senhor...
— No salão, você paga para continuar sendo cliente, mensalmente, ou apenas pelos serviços que utilizar?
— Pelos serviços, senhor...
— Pois é... Viu só como se explica o lucro absurdo dos bancos brasileiros: mesmo sem trabalhar, eles recebem mensalidades e outras taxas impostas aos clientes. Trocaram funcionários por máquinas. Segurança e manutenção são terceirizadas. O sindicato de vocês foi aniquilado. Amanhã, quando completar mais alguns meses de casa e começar a representar um custo muito elevado para ser mantida (e até demitida) pelo banco, você será trocada por alguém mais novo e barato, por um vaso de planta ou por uma gravação idiota, com as mesmas falas que você acaba de repetir para mim. Entendeu agora como funciona o jogo?
— O senhor quer fechar a conta, é isso?
— Não, porque sou obrigado a manter as contas. Sem contas, você e sua empresa deixam de existir. Por isso, talvez eu passe aí amanhã para jogar uma bomba na sua agência...
— Senhor, esta conversa está sendo gravada.
— Espero que esteja mesmo! Mande uma cópia para a dona Milu, sua patroa.
— Quem?
Conversa encerrada. Ela nem sabia quem era uma das maiores acionistas do banco para o qual trabalhava. Eu não tinha como levar adiante uma discussão com alguém treinado para dar respostas prontas. É provável que uma samambaia pudesse interagir melhor com os clientes do que aquela mocinha adestrada. A verdade é que bancos nos roubam descaradamente, e NINGUÉM diz nada. NADA! Banqueiros são agiotas legalizados. Apenas isso. E, junto com os da Fiesp, são os verdadeiros "chefes" deste país. Por isso, continuem aí, batendo panelas; não dará em coisa alguma. Presidente, governadores, prefeitos e todo o resto são paus-mandados. Quem governa de fato o Brasil está em outra esfera de poder, longe dos holofotes e faturando trilhões às custas de idiotas. Ou seja: nós!


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Enfim, o fim...



Ontem, também era evidente/constrangedora a “crise de idade”... No Congresso e em outras esferas de poder, não surgem novas lideranças (ou são impedidas de surgir). Há deputados, senadores, juízes etc. que entraram e não querem mais sair do poder. Dezenas deles, no mínimo, devem ter viajado escondido na arca de Noé, ido ao funeral da Cleópatra ou ao batismo de Jesus. Se somarmos as idades, voltamos à pré-História. Desolador ver aquilo...

A verdade é que a tal superproteção tem se tornado um tiro no pé (dos próprios pais e da sociedade em geral), e isso já é estudado e debatido nas academias. No Japão, é pauta das políticas públicas do Estado desde os anos 1980. Se tem alguém que resolva por mim (mesmo que de forma errada), por que vou arregaçar as mangas?

É provável, então, que venha daí essa carência de gerações protagonistas da própria história. (Na França, Macron é uma boa “arejada” nessa toca de velhas ratazanas que não largam o poder nos quatro cantos do planeta.) Embora muitos se tornem arrogantes, no fundo, jovens atuais são medrosos e acomodados, não têm peito/fôlego para encarar a realidade como ela é. Cheios de freios, vivem no mundo virtual. Ali, sim, têm superpoderes, capas voadoras e o escambau. Envelhecem de corpo, mas ainda imaturos. 

Como tudo, há um preço a ser pago. Já estamos pagando. A fatura maior ainda virá, porque, cedo ou tarde, os “superpais” estarão enterrados. Aí é que eu quero ver. Ou melhor: NEM QUERO VER. (Como digo, se há vantagem em envelhecer, é saber que estamos mais perto do fim. O corpo, sim, mas a vida já não nos pesa tanto. Já estou nesse “estágio”, felizmente.) 

domingo, 23 de julho de 2017

"Deixe-me ir, preciso andar"*




Quando eu era pequeno, tentei fugir, quis muito ir embora com um circo. Até contorcionismo aprendi a fazer. E não era para ser artista, eu queria apenas aquela vida livre, não criar raízes nos lugares, ser andarilho, um nômade. Definitivamente, eu devia ter entrado para o mundo dos espetáculos itinerantes. Amo viajar. Detesto os regressos. Viajante sem viagens, comecei a contar histórias, andar por aí na imaginação – não por gostar de escrever, mas para tentar sossegar de um jeito meio capenga essa minha alma inquieta. Porém, o que me faz falta mesmo é essa outra parte: andar de verdade. Cada vez mais longe. Sem esse compromisso de voltar. Um dia, quem sabe, ainda crio coragem de jogar a mochila nas costas e botar os pés no mundo. “A vida é de queimar as questões”, escreveu o genial Antonin Artaud... Pois é, ainda tenho essa questão das andanças para tirar da lista das minhas pendências existenciais – que agora já nem são tantas assim. Envelhecer é parar de brigar com a nossa verdadeira natureza. Cedo ou tarde, ela aflora e nos domina. Se não cedermos logo, corremos o risco de viver/morrer pela metade, em dívida com o destino.

.....


* Título em homenagem ao grande Cartola, verso da música "Preciso me encontrar".



quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lição do dia: "Ser ou não ser... cordeirinho"



Para preservar a tal “ordem e progresso”, o mundo precisa de cordeirinhos mansos, adestrados e obedientes. Só que não são os cordeirinhos que mudam a história. Na política, na religião, na ciência, nas artes, seja no que for, é preciso que surja um rebelde, alguém inconformado com o marasmo dos dias. Geralmente, esses revolucionários (tachados de “subversivos”) são perseguidos e eliminados o mais rápido possível para não contaminarem o rebanho com suas ideias que colocam em risco a tal “ordem e progresso”. Mais adiante (beeeem mais adiante), são idolatrados. Sim, esse é o preço de não ser cordeirinho. O sujeito pode mudar a história, mostrar outros caminhos melhores... mas vai morrer cedo e humilhado. Sempre foi assim. Sem dúvida, é bem mais fácil e menos perigoso ser cordeirinho.

Entendeu ou quer que eu desenhe? Bem,como não sei desenhar, coloquei esse outro aí, que busquei no Google (infelizmente, não encontrei o nome do autor). Acho que serve...

sábado, 8 de abril de 2017

Cuidado: animal feroz!




Faz muito tempo. Acho que li isso num desses clássicos romances de guerra, talvez em Os nus e os mortos, de Norman Mailer (mas não tenho certeza)... Lá, era explicado como os cães são treinados para as batalhas de campo. O animal, que costuma nascer manso, é amarrado e largado ao relento (principalmente, no inverno). Comida, o mínimo. Água, idem. Dia e noite, recebe banhos gelados, pauladas e também dão tiros em sua direção. No início, desidratado e desnutrido, ele vai ganir muito e tentar se encolher. Amarrado, não terá como fugir. E assim será punido injustamente até não aguentar mais. Então, já tendo aprendido a comer barro e as próprias fezes (além de beber a água suja dos banhos que recebe a todo instante), rosnará e tentará atacar o seu treinador-carrasco. Pronto, já estará apto para enfrentar qualquer inimigo; não terá mais medo de explosões, rajadas de metralhadoras, fome, sede, nada.

Muitas pessoas que hoje rosnam, já devem ter passado por esse tipo de situação. Se arreganham os dentes, não é por serem ruins, mas por uma questão de sobrevivência.

Por isso, não se aproxime muito, nem provoque demais a fera, porque ela vai saber se defender!

Bom final de semana a todos!

terça-feira, 4 de abril de 2017

Reflexões numa rápida pausa de almoço



Assistindo a um programa de entrevistas sobre solidão e velhice, numa associação livre (mas nem tanto), lembrei que tenho amigos que, anos atrás, estufavam bem o peito para dizer:

— Olha, se a pessoa não atender a uma série de pré-requisitos, não vai ter a menor chance de ficar comigo.


Pois é... Daí, o tempo foi passando, passando... Até que um e outro apareceu de braços dados e feliz da vida com alguém que, definitivamente, não tinha nada a ver com a tal lista de exigências. Alguns eram o “avesso” de tudo aquilo. Ora, imagino que os antigos “intocáveis” devam ter trocado a rigorosa lista de pré-requisitos por outra, de necessidades mais básicas e urgentes. 
Já os que até hoje continuam com o mesmo discurso, seguem de mãos abanando,amargos e frustrados. 


Claro que eu ainda não disse nada... mas que dá vontade, dá. Qualquer dia, se me pegarem virado no cão (o que não é difícil), vou disparar “na lata”: 


— Se enxerga, criatura! E lá você tem grande coisa para oferecer em troca? Só se for a dentadura.


Afff! Nem enchendo a cara dá pra agu
entar esse povo, viu?



sexta-feira, 17 de março de 2017

Minha amiga Carol...



No início da última década do século passado (sim, sou do século passado, uma “peça” já fora de catálogo, artigo para colecionador excêntrico – ou tarado), farto da área de comércio exterior, saquei dinheiro no banco e entrei numa agência de turismo.

— Para onde quer ir? — a atendente perguntou com aquele sorrisinho mecânico de quem acha que você não vai comprar nada.

— Qualquer lugar serve, moça, desde que seja bem longe daqui e dure o suficiente para que eu volte (se voltar!) esquecido de quase tudo.

Com grana guardada de um prêmio literário, comprei sem pestanejar o primeiro pacote que a fulana me ofereceu. Paguei à vista. Nem sei quantos dias fiquei por lá (Espanha, França e Inglaterra). Na chegada, em uma reunião no hotel de Madri, conheci Carol e Marisa (filha e mãe, respectivamente). Não sei por qual motivo, mas elas simpatizaram comigo logo de cara (talvez pelos meus comentários sempre muito “gentis e finos”). Ora, detesto caravanas de turismo. Comprei, porque são mais baratas. Mas eu sempre perguntava para onde os meus companheiros de viagem iam com o guia turístico naquele dia... para poder ir em sentido contrário... e ficar bem distante deles. E as duas riam disso. Mas não era para rir, eu falava sério. Puxa vida, alguém que viaja sozinho, quer continuar a maior parte do tempo sozinho! Não precisa ser um Einstein para entender isso!

Nos primeiros dias, cansado, dormi muito. Muito mesmo. Chegava a perder até mesmo o horário do café da manhã.

— Felipe, você está dormindo sobre dólares... tem que aproveitar mais o dinheiro que você gastou nesta viagem — era o que Marisa dizia, indignada como o fato de alguém ter ido tão longe para dormir quase o dia inteiro.

E eu, no melhor do meu humor "fraternal", rebatia:

— E daí? A grana não é minha? Se quiser dormir, durmo e pronto. 

Fui para lá com uma porcaria de portunhol, apenas isso. A Carol sabia inglês. Eu a contrariava o tempo todo, mas ela não ligava para as minhas rabugices. Eu dava coices, ela gargalhava. Realmente, não nasci para entender essa “lógica afetiva” das mulheres. Fui muito malcriado com várias mocinhas que até hoje não largaram do meu pé (inclusive minha mãe, coitada, que logo vai virar santa milagreira... como recompensa por ter me aturado tanto).

Mas vamos lá... Na viagem, de vez em quando íamos juntos a alguns lugares (museus, restaurantes etc.). Nessa época, Carol não comia carne, nem isso, nem aquilo. Ahhhhh!!!!! Minha paciência dura o tempo de um piscar de olhos e, para piorar a situação, muitos lugares por lá (principalmente em Paris) não servem apenas um cliente quando a mesa for ocupada por "vários". No caso, Marisa, Carol e eu. Para aqueles cubículos chamados de bistrô, três pessoas representam uma “lotação esgotada”, um "sucesso de público". Que me perdoem os sofisticados, mas acho aquilo uma bobagem. Cobram caro para servir um prato quase vazio em um local do tamanho de uma gaiola. Enfim, quando achávamos um lugar que oferecesse o bendito “cardápio” da Carol, não havia o que Marisa e eu queríamos/precisávamos comer. Bem, lá pelas tantas, bufando por ter rodado tanto pelo tal Quartier Latin em busca das “preferências” gastronômicas da Carol, a mãe dela me olhou de rabo de olho, como se me autorizasse a dar um ultimato. E foi o que fiz:

— Nós vamos entrar no primeiro lugar que oferecer comida decente, e você vai comer o que tiver! Ou vai ficar na calçada, esperando. 

Incrível, ela ria de mim. Vá entender...

Mais adiante, em um teatro famoso (já nem lembro o nome), fomos assistir a um daqueles shows meio cafonas para turistas. Lá, ofereciam uma garrafa de champanhe por pessoa. Sinceramente, eu estava mais interessado no champanhe. Era cortesia (é provável que, por precaução, tentem embebedar o público para que ninguém peça de volta o dinheiro do ingresso). Antes de entrar, Marisa e eu demos uma ordem bem clara:

— Carol, se você disser que não bebe e recusar a sua garrafa, sairá rolando escada abaixo.

Adolescente é fogo! Mas ela, acho que beliscada pela mãe por baixo da mesa, acabou se comportando direitinho: aceitou a garrafa.

Como disse, Carol dominava o inglês. Portanto, era a minha tradutora oficial. E ela fazia chantagem com isso, claro:

— Se continuar me maltratando, não traduzo nem falo mais nada por você.

Pois é... tive que aceitar.

Sim, ela também tirava fotos de mim (não havia “selfie” naquele tempo)... e queria dar ordens:

— Olhe para a câmera!

— Não gosto de olhar para a lente!

— Por quê?

— Por que não aguento mais olhar para a sua cara! Vai, bate logo essa foto!

Foi assim, desse jeito bastante “afetivo”, que nos conhecemos e nos tornamos amigos. Há um carinho especial. Coisa que a gente não explica, apenas sente (mesmo à distância).

Feliz aniversário, Caroline Ladvocat!



Tudo de MELHOR que a vida possa lhe dar, SEMPRE!

Obs.: Tá, não precisa ligar para agradecer... Aliás, acho que nunca lhe dei o número do meu telefone, dei? Bom, que fique assim... 




quinta-feira, 16 de março de 2017

Tempo de despedidas (2)



Indo aos Correios, eu passava por um caminhão no qual um tiozinho vendia frutas. Sempre o cumprimentava, apertando-lhe a mão ou batendo no seu ombro. Em dias muito quentes, ele me dizia: 

“Amigo, cadê o chapéu? Tem que proteger bem a cabeça.” 

E ele recomendava isso sem saber dos meus aneurismas clipados. Era coisa de gente mais velha, que simplesmente vai soltando o que o coração quer dizer, sem medo.

Bem... Voltando das férias, passei uma, duas vezes por lá... e nada de vê-lo no caminhão. Agora havia um rapaz ali. 

Ontem, parei e perguntei:

“Moço, e o tiozinho das frutas, ele tá bem?”

“Pois é, o seu Sílvio morreu. Foi na véspera do Ano Novo. Tinha 73 anos e fumava muito...”

Aquilo me deu um nó na garganta. Estamos na fase das despedidas, é natural que fiquemos mais sensíveis e apegados às pessoas – conhecidas ou não. Ele era um estranho, sim. Nem o nome dele eu sabia. Mas fazia parte das minhas andanças – e agora das minhas memórias. 

Vá em paz, seu Sílvio! Vou usar mais o chapéu e o boné! Obrigado!


domingo, 12 de março de 2017

Crescer ou não crescer, eis a questão



Há uma fase na qual nos afastamos das pessoas (familiares, amigos de infância etc.) para moldar melhor a nossa personalidade, aprender a andar com as próprias pernas. E mais adiante vamos nos aproximando outra vez daqueles queridos (e agora já meio estranhos). Daí, entre os héteros, encontramos de vez em quando os que pararam no tempo. E também não é raro nos depararmos, entre os homossexuais, com os que (numa visão/linguagem junguiana) têm maior identificação com o “puer aeternus” (nem sei pronunciar direito, mas são “jovens eternos” e, em geral, “muito dependentes da figura materna”). É aquela pessoa que, décadas depois, insiste em falar dos mesmos assuntos, guardar sonhos quase infantis e que ainda não conseguiu sair (física e/ou psicologicamente) do primeiro ninho. Mesmo sem terem nas mãos as rédeas do próprio destino, costumam ser arrogantes e bastante críticos. Enfim, não conseguiram fazer o rito de passagem para a vida adulta. Trocando algumas palavras com eles, percebe-se que, apesar do discurso de liberdade sexual, afetiva etc., sentem falta de ter uma companhia mais duradoura. Desdenham dos “casados”, mas, no fundo, gostariam de encontrar a tal “cara-metade”. Ora, não existe isso de alma gêmea, é balela de crença, literatura, filme, telenovela, medo de encarar a realidade. O que há de fato numa relação a dois é um contínuo exercício de concessões e “adestramento” do ego. Afinidades "lapidadas" com o passar dos anos e diferenças "amansadas/negociadas" na estiva do dia a dia. Aprendi isso (ou mais ou menos isso) com meu amigo escritor/terapeuta Klecius Borges. E também com o tempo, lógico.



sexta-feira, 10 de março de 2017

A barbárie e o silêncio




Na primavera de 2013, para deixar de cabelo em pé a equipe de enfermagem, eu, além de terminar de editar um livro sobre terrorismo, caminhava sem parar pelos quartos e corredores do hospital Santa Paula durante a minha longa internação para duas complexas neurocirurgias. Fiz muitas amizades. Entre os pacientes, conheci Josué, um angolano gravemente ferido na perna por uma mina enterrada em um parque. Ele tinha feito algumas cirurgias na África, mas ainda estava com uma infecção poderosa, que já havia atingido a parte óssea. Seria a última tentativa para combater a bactéria. Se não desse certo, teria que amputar a perna. Conversávamos muito. E, ao assistirmos a uma reportagem sobre torturas praticadas pelo Estado Islâmico, a qual mostrava crianças sendo queimadas vivas em uma jaula, comentei com ele que, no Brasil, alguns jovens conservadores e desavisados queriam a volta dos milicos ao poder. Ao ouvir isso, ele sacudiu a cabeça e murmurou:

“São loucos, não sabem o que é uma ditadura”.

Mais adiante, contou que um parente, quando sua aldeia foi invadida pelas tropas de um ditador, teve que escolher um dos filhos para o sacrifício em sinal de obediência ao novo governo.

“Que sacrifício?”, perguntei ingenuamente.

“Ele teve que escolher um para esmagar a cabeça no pilão. O pai tinha que pegar um dos filhos e triturar os miolos dele diante do resto da família e vizinhos, no pilão de moer milho. A mãe era forçada a segurar o filho. E assim era feito em todas as casas. Não poupavam nem os que tinham apenas um filho. Se o pai não fizesse isso, toda a família era fuzilada imediatamente, começando pela mulher.”

Ele se calou. Eu também. Não havia mais o que dizer ou perguntar.

Essa barbárie deveria ser mais divulgada e mostrada na mídia e nos currículos escolares para que Marine Le Pen, Frauke Petry e outros Bolsonaros-da-vida com suas ideias estúpidas não se proliferem nunca mais. 

Aliás, em Buenos Aires, ao lado da Casa Rosada, há um museu com filmes e outros documentos sobre o terror da ditadura militar na Argentina. No Brasil, esse assunto continua velado.

E agora querem retirar a disciplina de História das grades curriculares...

Sinceramente, sinto muita vergonha de ver e testemunhar marchas e discursos tão imbecis, como os dos novos (novos?) fascistas. No fundo, invejo quem já morreu. Fazer parte desta história atual é ultrajante!

Estamos nos transformando em zumbis... A escritora e importante feminista carioca Rose Marie Muraro dizia que o mundo estava doente e que, cedo ou tarde, todos seriam contaminados por essa "doença do mundo".

E a dor maior (ou pior sintoma) da "doença do mundo" é o desânimo. A apatia. O silêncio.

O mais angustiante é que olho em volta e vejo claros sinais de amigos queridos já contaminados por essa "doença do mundo". Talvez eu já esteja, também... É muito triste isso. Desesperador.