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terça-feira, 10 de março de 2015

Choque de gerações

Entrei hoje, mais por curiosidade do que para realmente comprar algo, numa loja de produtos para marombeiros. O rapazote, muito amável e com o corpo digno de uma aula de anatomia, explicou pacientemente isso, aquilo e tudo que havia de melhor naquela infinidade de produtos "milagrosos". Esse aqui ajuda a queimar calorias, disse, mas este outro fortalece os músculos. Tem um que é bom para o cabelo, elasticidade da pele... Na sequência, conforme me analisava melhor, começou a pegar pesado: "algumas cápsulas para repor o cálcio, minimizar a osteoporose..." 

E eu ali, olhando para ele, também para os cartazes pendurados nas paredes. Gente linda, corpos de dar inveja, quase um deboche aos simples mortais. 

O atendente já havia descido tudo das prateleiras... Quando mais ele tentava me instigar a comprar algo, menos animado eu ficava. Por fim, exausto, decidiu fazer a pergunta de praxe:

"Não vai levar nada, 'senhor'"?

Bah... "senhor"... fodeu!

"Tem arsênico?", brinquei. "Mas, por enquanto, pode ser vodca."

Ele arregalou os olhos, gente nova não costuma ter muito senso de humor.

"Não, isso não, senhor."

"Ah, desculpe, entrei na loja errada..."

Ele sorriu meio sem graça.

"Não, obrigado, não vou levar nada", tentei finalizar com um dos últimos sopros da minha cota anual de gentilezas.

Mas ele ainda arriscou, devia estar com a cartilha do "bom vendedor" na ponta da língua: 

"Mas o senhor disse que voltou a malhar, tá fazendo regime... Então, tem que levar suplementos. Eles é que ajudam a melhorar o treino, os músculos, a pele, o cabelo, o metabolismo, tudo."

Já que ele havia me insultado de "senhor", revidei:

"Filho, o que ajuda tudo isso que você disse... é ter pouca idade. O resto é bobagem."

Ele murchou. Fiquei com pena. Sai de lá com um não-sei-que de proteína de soja. Nem perguntei se dava para diluir aquilo na vodca; os neurônios do guri iriam entrar em curto.



© Felipe Greco


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